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Os poderosos Gigantes ressurgem das entranhas do Monte Etna, no sul da Itália. Ágrios e sua força brutal, Toas e seus relâmpagos, Pallas o parvo, e Tífon, o líder de todos. Eles têm apenas um desejo: vingar-se da Deusa Atena, a defensora da humanidade. Assim tem início a Gigantomaquia, a grande guerra dos Gigantes.

Para defender Atena e a própria humanidade, os Cavaleiros do Zodíaco terão que demonstrar uma força que nem mesmo eles sabem se realmente têm. É um grande desafio, mas eles terão um aliado, um novo Cavaleiro para a galeria dos heróis do Zodíaco: o Cavaleiro de Coma Berenices.

Um épico eletrizante no interior da clássica criação de Masami Kurumada, Uma história como nunca se viu nos mangás ou nos animes.


Orestes

Contam as lendas gregas que foi na famosa Acrópole que aconteceu a disputa entre a deusa Atena e Poseidon, o deus dos mares, pelas terras da Ática.

Atena teria sido escolhida pelo povo como sua protetora depois de fazer nascer uma oliveira na pedra nua. Em sua homenagem, os atenienses construíram um enorme santuário de mármore, originalmente pintado em cores vibrantes em uma rocha de 800 metros de diâmetro. A Acrópole, ou "cidade alta", ergue-se a uma altura de 70 metros da capital grega.

Mesmo desbotadas pelo tempo e castigadas por séculos de história, as construções da Acrópole continuam a ser admiradas e reconhecidas até os dias de hoje como um dos maiores feitos da humanidade.


É noite.

- Está fazendo menos calor agora, não é? - os cabelos cor de linho de Shun balançam com o vento no teatro a céu aberto. Ele faz o comentário bem baixinho, virando-se para trás, desviando seu olhar do palco para avistar a Acrópole.

É verão. O sol custa a ser pôr em Atenas.

Nessa época do ano, só começa a escurecer depois das oito da noite, quando um tom de azul profundo se espalha lentamente pela cidade. Intensas luzes douradas se acendem na Acrópole, iluminando as colunas do Partenon, os baixos-relevos e cada detalhe desfigurado pelo tempo.

- Senhor Nikol, obrigado por me acompanhar.

- Não por isso. - diz Nikol, sorrindo. - É sempre bom vir ao teatro.

Nikol está sentado ao lado de Shun na platéia. É um homem elegante e simpático, apesar de sua roupa toda preta parecer um pouco pesada demais para o verão do Mar Egeu. Com cabelos castanhos e um olhar tranqüilo, é o que podemos chamar de um verdadeiro "intelectual".

- Na verdade eu convidei o Seiya... Mas ele disse que ia morrer de tédio.

- Ora, trazer um moleque como ele a uma peça de teatro clássico seria jogar o ingresso fora.

Shun sorri e seu rosto adolescente brilha na luz refletida pela pedra. Apesar de muito jovem, ele não tem o ar infantil da maioria dos garotos de sua idade.

Os dois estão sentados lado a lado no ponto mais alto do auditório.

- O que você sabe sobre o Odeon? - pergunta Nikol.

- Não muito.

Construído em 161 a.C., o enorme teatro tem capacidade para 6 mil espectadores e uma acústica impressionante.

- Dá até pra escutar um som de uma moeda caindo no palco. - explica Nikol. - Também é chamado de Odeon de Herodes Atticus, em homenagem ao político romano que doou os recursos para sua construção. Foi reformado depois da Segunda Guerra Mundial e hoje recebe artistas do mundo inteiro.

- Parece que o gosto dos gregos pelo teatro é o mesmo desde a Antiguidade até os dias de hoje... - comenta Shun.

- Aqui nós vamos ao teatro como se vai a um jogo de futebol.

Peças clássicas, como a de hoje, são geralmente apresentadas em teatros a céu aberto, sem correr muito risco de cancelamento por causa de chuva: na Grécia cerca de trezentos dias por ano são ensolarados.

- Mas elas só podem começar quando as luzes se acendem, depois do pôr-do-sol, e por isso acabam bem tarde.

- Este espetáculo tem cinco horas de duração...

- A noite vai longe! - diz Nikol, sorrindo. - Todos os gregos, até mesmo as crianças, dormem muito, muito tarde.

Este é o intervalo entre a primeira e a segunda parte da Trilogia Orestéia, de Ésquilo. Nikol quer saber o que Shun, um garoto japonês, acha do teatro clássico grego.

- Muito interessante. - diz Shun.

- Acha mesmo? As obras de Ésquilo são grandiosas, sem dúvida, mas também podem ser bastante cansativas...

Ésquilo viveu no século 5 a.C. e foi um dos três grandes autores de tragédias. Suas peças continuam a ser encenadas, não apenas na forma clássica, mas também nas mais diversas interpretações contemporâneas.

A Orestéia se passa um pouco depois da Guerra de Tróia, aquela de Ulisses, Heitor e Helena. O conflito é desencadeado por uma maçã de ouro dedicada "à mais bela", atirada entre as divindades por Éris, a deusa da discórdia - e acaba de fato envolvendo a mulher mais bela do mundo, Helena de Tróia.

A primeira parte da trilogia se chama "Agamenon". Nela, o personagem-título, comandante-chefe dos gregos e rei de Micenas, oferece sua filha Ifigênia em sacrifício. A rainha Clitenestra fica indignada e arma um plano para assassinar Agamenon, com a ajuda de seu amante, Egisto.

- O Seiya teria dormido só de ouvir essa explicação. - diz Shun.

- Da próxima vez tente levá-lo a uma comédia, daquelas bem vulgares. É o tipo de coisa que as crianças da idade dele gostam. - Nikol já tinha ouvido falar muito de Seiya, e se referia ao garoto de um jeito inocente e brincalhão.

Depois do intervalo, começa a segunda parte da peça: "Coéforas".

Nove anos se passaram desde a morte de Agamenon. Seu filho Orestes, que havia sido enviado secretamente a um país vizinho, jura ao Oráculo de Delfos que irá vingar a morte do pai.

O estilo da apresentação é fiel ao teatro clássico, com atores mascarados e os mesmos efeitos de palco da Antiguidade.

Orestes retorna a seu país às escondidas para eliminar Egisto, com a ajuda da irmã Electra, e acaba encontrando a verdadeira assassina de seu pai: sua mãe, Clitenestra.

Clitenestra suplica pela própria vida. Orestes fica dividido por alguns momentos, mas não abandona a convicção de vingar a morte do pai, conforme ordenado pelo Oráculo.

- Dei à luz uma serpente. - diz a desesperada Clitenestra.

- Você matou quem nunca poderia ter matado. Por isso será condenada a um sofrimento que não deveria existir - Orestes golpeia Clitenestra com a espada, dizendo que ela não está sendo assassinada por seu filho, e sim por si mesma.

A rainha Clitenestra cai morta, espalhando o vermelho do sangue pelo palco. Matricídio. Todos os olhares da platéia se voltam para o Orestes mascarado, ainda segurando a espada com a qual matou a mãe. A notícia de seu ato hediondo chegará aos ouvidos das três Erínias, as deusas da vingança, que o levarão à loucura na terceira parte da Orestéia.

Mas tem algo de muito errado na apresentação de hoje. Nikol se levanta abruptamente, perplexo.

No teatro clássico grego, um assassinato nunca pode ser encenado abertamente diante do público. É um tabu. A cena deve ficar implícita na narrativa ou acontecer fora do campo de visão da platéia. Pode-se ouvir o grito da vítima, por exemplo, mas é terminantemente proibido encenar a morte, os detalhes do crime. Nikol sabe que trair essa regra numa peça clássica seria algo inconcebível para uma companhia teatral grega, ainda mais numa apresentação no Odeon. E as coisas ficam cada vez mais estranhas.

- São dois? - sussurra Nikol, incrédulo.

No palco agora estão dois Orestes, usando a mesma máscara. Desde quando o outro estava lá? De onde ele surgiu?

O ator que interpretava Orestes até agora parece congelado pelo assassinato que acaba de presenciar. Mal consegue gritar quando seu outro "eu" vira a espada em sua direção e arranca sua cabeça, com máscara e tudo, num golpe preciso.

O teatro vem abaixo. Não é mais uma peça, a tragédia hoje é pra valer. O público desperta da comoção causada pela apresentação, passando da ilusão para a realidade em segundos.


O falso Orestes pula do palco e corre pela platéia agitando a espada suja de sangue. Shun sente que aquela energia mortífera é dirigida a ele. De fato, o homem por trás da máscara se aproxima rapidamente do ponto mais alto do anfiteatro.

A espada do assassino solta faíscas diante dos olhos de Shun, que se defende do golpe mortal com uma corrente que ninguém parece saber de onde surgiu. Ninguém entende, também, como um garoto franzino consegue conter todo o peso e a força do agressor.

- Quem é você? - pergunta o falso Orestes, com seus braços musculosos e poderosíssimos saltando do traje de palco.

O odor sutil que chega às narinas de Shun é o de uma fera faminta. Ele estica um pouco mais a fina corrente, que, neste momento, contrariando toda a lógica e surpreendendo a todos, acaba reduzindo a pó a pesada espada de bronze.

O assassino não parece se intimidar, e passa a lutar com as próprias mãos. Shun é o único que consegue acompanhar seus movimentos ultra-rápidos. Apenas Shun percebe quando ele se vira para Nikol e suspende o corpo do grego no ar, atirando-o com uma força sobre-humana contra uma parede de pedra. Mas nem mesmo Shun sabe onde está o agressor alguns segundos depois, em meio à confusão e ao caos generalizado do anfiteatro.

- Para onde ele foi?

O garoto, alerta, mantém a posição de luta com suas correntes enquanto protege Nikol. Nem sinal do Orestes mascarado, que já sumiu na escuridão da noite de verão em Atenas.

As vontades dos Deuses, liberadas pelo Universo no momento de seu nascimento, chocaram-se contras as fagulhas de vida espalhadas por toda a tarde, e se abrigaram nas Estrelas.

Em Uranus - o Céu - refugiaram-se as estrelas.

Em Pontus - o Oceano - teve início a vida.

Ao som e ao ritmo suave do Tempo, o Mundo se desenvolveu - e nele todas as pessoas nasciam, morriam e tinham seu destino determinado pelas Estrelas.

Antes que as próprias pessoas se dessem conta, foram surgindo aqueles que traziam em seus corpos as Vontades dos Deuses, seus Profetas, ou os próprios Deuses adquirindo existência terrena.

Quando surgiram essas encarnações dos Deuses, elas procuravam guiar o "Mundo" de acordo com suas vontades, confrontando-se para proteger os Deuses, também escolhidos pelas constelações.

Havia também Atena, e os Sagrados Guerreiros de Atena.

O embate mortal entre os Deuses pela supremacia no Mundo se estendeu por espaços temporais inconcebíveis para a mente humana.

Nos campos de batalha, Atena estava sempre cercada de jovens guerreiros que vinham de todos os cantos da Terra para protegê-la. Eram jovens verdadeiramente dotados de Coragem e Força. Seus golpes cortavam o ar, seus chutes rachavam o solo. Esses Guerreiros da Esperança surgiram sempre que o Mal ameaçava se espalhar pelo Mundo.

Mas seus nomes se perderam no Tempo e são ignorados até mesmo pela Mitologia Grega. Esses jovens lendários e esquecidos... os Sagrados Guerreiros de Atena.


Os Santos de Atena

Parte 1

A “Mitologia” é a própria sistematização da cultura e de suas ramificações desde o surgimento da humanidade. É, por definição, algo tão vasto que nem o mais dedicado poeta épico poderia narrar cada uma de suas histórias, e com certeza seria impossível reunir todos os relatos em um mesmo livro. Por estar em evolução constante, nela coexistem teorias dispares e até contraditórias, e qualquer esforço em discutir ou alinhar as diferentes versões não seria mais do que um divertido passatempo.

Na antiguidade os gregos eram chamados de “helenos”, ou “povo de Hellas”, forma como se referiam à sua terra natal. Até os dias de hoje, a Grécia se intitula “República Helênica” cada vez que sua delegação de atletas lidera o desfile de abertura dos jogos Olímpicos.

O nome que usamos tem origem latina e foi adotado inicialmente por estrangeiros. Na verdade, a palavra “Grécia” só existe na língua portuguesa, sendo “traduzida” de diferentes formas em outros idiomas, como Greece, em inglês. Essa confusão é mais comum do que se pode imaginar. Os japoneses, por exemplo, chamam sua terra de Nippon, ou Nihon, e não de Japão (e suas variações, dependendo da língua), como o país é conhecido no resto do planeta.

Conta a Mitologia que o mundo como nós o conhecemos teve início quando Zeus provocou um dilúvio para destruir a humanidade. Ele era o mais poderoso dos deuses gregos, e considerava a espécie humana cruel e medíocre.

Apenas um casal conseguiu escapar dessa catástrofe: Deucalião, filho do sábio titã Prometeu – aquele que dera aos homens o fogo, até então um dom exclusivo dos seres imortais – e Pirra, filha de Pandora – a primeira mulher, que recebera dos deuses inúmeros presentes. O primogênito desses sobreviventes recebeu o nome Heleno, e se tornou o lendário pai do povo grego.

O Santuário.

A morada da deusa Atena não fica muito longe de Atenas, a maior cidade da Grécia, mas não aparece em nenhum mapa conhecido dos homens. É uma montanha sagrada, completamente isolada do resto do universo, separada do nosso mundo por estrelas e grossas camadas de nuvens.

Nem mesmo os mais avançados e precisos satélites de espionagem seriam capazes de encontrar esse lugar, inteiramente coberto pela Vontade Superior dos Deuses e protegido por barreiras divinas que repelem qualquer tipo de interferência externa. Esse é o Santuário, cuja existência está além da lógica e da compreensão humanas. Procurar por ele é o mesmo que buscar a Deus, e duvidar de sua existência algo tão perigoso quanto questionar o criador.

Anoitece.

- Por que as estrelas estão tão agitadas? – sussurra Yuuri, balançando levemente seus cabelos prateados.

Sua pergunta fica sem resposta: ela está sozinha no observatório astronômico, um espaço circular ao ar livre localizado no cume da montanha. O céu noturno lembra um planetário, límpido e povoado de estrelas, como se a terrível poluição urbana de Atenas não existisse. No piso sob seus pés, há o mosaico delicadíssimo de um mapa duodecimal indicando os quatro pontos cardeais.

Áries, Touro, Gêmeos, Câncer...

- É como se as estrelas estivessem caindo da Via Láctea...

Yuuri está em pé no ponto de observadora estelar. Seu traje lembra os usados pelos antigos gregos: um quitão branco sobre o qual descansa uma túnica escarlate, presa por um broche na altura do ombro direito. Sobre seu rosto há uma máscara, mas muito diferente daquelas que vemos em festivais ou no teatro. É uma máscara de silêncio, feita unicamente para esconder qualquer expressão de sentimento humano.

-... de novo! - outra estrela “cai” rumo ao oeste.

Todos os seres humanos nascem, morrem e reencarnam de acordo com os desígnios das estrelas. Observá-las é uma forma de enxergar melhor o nosso mundo. Em nenhum momento Yuuri desvia seu olhar atento do céu.

- O mestre Nikol bem que poderia estar aqui, mas foi ao teatro com aquele garoto bonitinho...

No alto do firmamento está o triângulo de pontos brilhantes formado por Deneb, Vega e Altair, estrelas das constelações de Cisne, Lira, e Águia, respectivamente. Há um espaço opaco no mapa estelar, logo abaixo da constelação de Virgem, que está perto de se esconder no horizonte. É nesse pedaço do céu esvaziado que Yuuri vê estrelas caindo em frangalhos, formando uma calda em chamas.

- Preciso avisar Atena – ela é oficiante auxiliar do Santuário, e essa é sua missão. Yuuri chama a deusa dizendo seu nome em voz alta.

Atena existe em carne e osso, assim como seus cavaleiros. É a deusa protetora do Amor e da Paz na Terra, e se faz presente nesta região sagrada.

Num sobressalto, Yuuri sente a chegada de um instinto assassino. Um arrepio percorre sua espinha, uma sensação real como a lâmina de uma faca contra sua nuca. Um inimigo: e ela está bem na mira dele.

“Mas como? Eu nem percebi...”, pensa, transtornada.

- Você é uma amazona – diz o invasor.

- Sim. Sou Yuuri do Sextante – paralisada, ela não tem alternativa senão falar com o estranho às suas costas. – Você tem consciência de que invadiu o Santuário de Atena?

O invasor não responde. Yuuri se sente ainda mais acuada, sabendo que fez uma pergunta idiota. Ninguém penetraria a região sagrada “por acaso”. Seria impossível ultrapassar suas redomas espirituais “sem querer”.

- Quem enviou você...?

- Toda mulher deve usar a máscara para poder se juntar aos Cavaleiros, abandonando completamente sua feminilidade. Essa é a regra...

Yuuri está cada vez mais confusa. Um ruído abafado e sua máscara de silêncio cai no chão, partindo-se ao meio.

-... e esse é o seu rosto.

Ela levanta as mãos para cobrir o próprio rosto, num movimento instintivo. Seu oponente aproveita a oportunidade e atinge com um soco seu abdome desprotegido, erguendo seu corpo e atirando-o com tanta força no chão que Yuuri perde os sentidos.

O invasor olha para o mosaico no chão com desdém, soltando um riso de deboche.

- Há! – o grito produz uma onda de energia que lembra o impacto de um meteorito, destruindo o piso do observatório, até o mapa zodiacal desaparecer numa nuvem de pó.


Parte 2

O homem acorda de sua soneca com um chute que o lança mais de dez degraus escada abaixo:

- Levanta, cara!

- Nossa, essa doeu! E eu estava dormindo tão bem... – uma pausa. Seu tom de voz muda completamente ao perceber quem o acordou. – Ai, ai, ai...!

- Quantas vezes eu tenho que acordar vocês? Parecem macacos! – diz, sem cerimônia, o garoto japonês de corpo delgado.

- B-boa noite, senhor Seiya. – responde o homem na escada, enquanto sacode rapidamente seus dois colegas, que também cochilavam. Os três vestem armaduras de couro, o uniforme dos soldados defensores do Santuário de Atena.

Se frequentasse a escola, Seiya estaria cursando o ginásio. O aspecto franzino e seus menos de 1,70m de altura não lembram em nada os imponentes e musculosos lutadores profissionais. Seus cabelos formam ondas que dão impressão de intenso dinamismo e seu olhar penetrante transborda aquela energia típica dos jovens. Com seu traje e protetores de couro, parece pronto para uma festa à fantasia.

- Ô moçada! Vocês são a guarda noturna, têm que vigiar o Santuário sem dormir.

- C-claro, senhor. A gente sabe.

- Então por que ficam cochilando? – continuou o garoto. – Vocês andam muito moles! Não é porque ultimamente está tudo em paz que nunca mais vai aparecer um inimigo!

Seiya fala com autoridade, como se fosse um sargento comandando suas tropas.

- É por essas e outras que vocês nunca deixam de ser soldados rasos – completa ao se afastar do grupo, deixando para trás os soldados, assustados até o último fio dos cabelos. - Se bem que esta noite de verão está mesmo perfeita para uma soneca.

Seiya também está em serviço, mas sua vigilância é solitária. Foi muito azar ter sido escalado para a patrulha noturna neste calor. Talvez tivesse sido melhor aceitar o convite de Shun, com certeza seria divertido passear em Atenas. “Mas assistir uma peça de teatro fedendo de tão velha? Que graça o Shun vê nisso?”

Parecendo se esquecer da bronca que deu nos soldados ainda há pouco, Seiya solta um bocejo sossegado e tranqüilo. No céu, uma imensidão de estrelas.

Este sempre foi o Santuário de Atena.

Os doze templos da abóbada celeste compõem uma trilha íngreme ao redor da montanha rochosa. São as chamadas Casas Zodiacais: Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes. Esse caminho tortuoso leva à Sala do Mestre e ao Templo de Atena, o mais sagrado de todos.

O Odeon fica ao pé da montanha, ao lado de outras construções comuns, como casas e a torre do relógio. Assim como acontece em Delfos, famosa por seu oráculo, a cidade parece se erguer em torno do monumento sagrado. Neste mesmo espaço convivem diferentes estilos arquitetônicos, alguns de períodos separados por milênios. As ruínas de edificações antigas são testemunhas do uso contínuo desta região ao longo de muitas e muitas eras. Esta é a Sé dos cavaleiros que defendem a Terra.

Desde os mais antigos mitos e fábulas, Atena saiu sempre vencedora dos combates entre deuses em fúria. Todos os relatos dão conta de que a deusa guerreira nunca falhou em sua luta pela defesa da paz. E em nenhuma ocasião o Santuário caiu diante de forças maléficas.

Seiya interrompe abruptamente sua caminhada vigilante.

“Que sensação é essa?” Um pressentimento desagradável. O jovem volta seu olhar na direção do observatório celeste, no cume da montanha.

- Aaaaahhhhh!

Os gritos pegam Seiya de surpresa.

- Mas o que... – alarmado, ele sobe a escadaria o mais rápido que pode, pulando quatro ou cinco degraus a cada passo. Um odor penetrante e espesso de sangue faz com que prenda a respiração por um instante. O cheiro é tão forte que parece vir de sua própria boca.

- Mais um rato – diz uma voz vindo das sombras, enquanto são atirados na direção de Seiya os pobres coitados responsáveis pelos berros horripilantes.

- Esses caras são os...

O primeiro tem todos os ossos em pedaços, aparentemente esmagados por uma força devastadora. O segundo está todo perfurado, cada centímetro de seu corpo atravessado por agulhas. O terceiro é um cadáver desfigurado, com a pele arrancada como a casca de uma romã.

São os três guardas que há pouco cochilavam. Mortos. Soldados de Atena, derrotados em seu santuário!

- Quem está ai? – grita Seiya na direção dos inimigos, até agora ocultos nas sombras. Só então consegue enxergar dois dos invasores que ousaram sujar de sangue a região sagrada.

- Ágrios, a força brutal – apresenta-se com uma voz grossa o gigante de dois metros e meio, tão grande que chega a encobrir as estrelas.

- Toas, o relâmpago célere – diz o outro, também bem alto, mas não como o primeiro.

- Quirri! Eu sou Pallas, o parvo – a terceira voz é esganiçada, e a mais aterrorizante de todas. Seiya engole seco diante da última criatura a ser revelada pela luz das estrelas. Trata-se de um demônio.

Pallas tem braços desproporcionalmente compridos e costas curvadas como as dos corcundas em fábulas europeias. O torso distorcido está tão dobrado para a frente que o rosto minúsculo e esquelético fica na altura da cintura de Seiya, fazendo com que a criatura lance seu olhar doentio de baixo para cima. O monstro parece exercer uma atração terrível, talvez pela paixão que os seres humanos têm por tudo o que é bizarro, a mesma fascinação que nos atraiu à Quimera.

- Essa armadura? - balbuceia Seiya.

- Eis o traje de Adamas! Quirri! A Armadura da Grã-Terra que protege os Gigas! – responde Pallas, abrindo ameaçadoramente os braços compridos como os de uma aranha.

É a armadura de diamante, que também poderia ser chamada de “armadura de cristal”. Um traje composto de polígonos de cristal com um brilho hipnotizante. Seiya percebe que os outros dois invasores vestem a mesma armadura.

- Os Gigas? – pergunta o garoto, perplexo. – O que são os Gigas?

A ignorância de Seiya a respeito dos Gigas provoca em Ágrios uma reação encolerizada.

- Atena. E os cavaleiros! Como ousam esquecer o nome dos Gigas?!

- Contenha-se, Ágrios.

- Mas, Toas...!

- Parece-me de certa forma inevitável – continua o segundo gigante. – Nós, os Gigas, fomos aprisionados por Atena na Gigantomaquia de tempos longínquos. Imagine quantas eras percorreu o mundo enquanto vagávamos por nosso cativeiro mortal, no vão entre Gaia e o Tártaro. Basta olhar para o céu. Até mesmo a Estrela Polar mudou de lugar desde que partimos. Inúmeros astros já extinguiram sua chama e se perderam no firmamento...

- Quirri! Chega de bancar o poeta, Toas – interrompe Pallas, ao mesmo tempo em que aponta suas garras afiadas na direção de Seiya.

Os dedos do monstro são absurdamente longos, muito maiores que os de uma pessoa, e cada movimento produz um agudo som metálico gerado pelo atrito de uns com os outros. A armadura de diamante brilha num aterrorizante tom vermelho-escuro, fazendo com que a mão da criatura se assemelhe a uma aranha venenosa.

- Você usou essas garras contra eles! – protesta o menino.

- Sabe, pele de moleque é fácil de arrancar! – responde a criatura, soltando então um grito maníaco. – Quirri! Garras marionetes!

Seiya escapa por um triz da primeira investida de Pallas, que chega a arranhar seu nariz e cortar alguns fios de seu cabelo. Sem a menor chance de se recompor, o garoto é quase imediatamente atingido por Ágrios, que se atira contra ele como uma fera gigantesca, lançando-o ao ar.

- Ohhhhhhhhh – o corpo de Seiya cai no chão com força. – Que força incrível tem esse Ágrios! E pensar que ele só me pegou de raspão...

- Vejo que suportou bem o ataque! Você parece ser um pouco menos molenga que esses mortos aí no chão.

- Pode calar a boca, grandalhão – responde Seiya, enquanto se levanta com um olhar de deboche. – Você não está me comparando com soldados rasos, não é?

- Seu macaquinho!

- Seiya! - o bate-boca é interrompido por uma nova voz surgindo na noite.

- Kiki? É você?

Um garoto de cabelos curtos e eriçados olha os invasores com uma expressão assustada. Deve ser uns cinco anos mais novo que Seiya. Suas sobrancelhas foram raspadas, talvez por algum significado cerimonial, e em seu lugar há um desenho curioso e peculiar.

- Vim porque senti presenças suspeitas... quem esses caras? – seu rosto parece combinar a originalidade de diversos povos, podendo ser considerado tanto oriental quanto ocidental. Em japonês, o nome Kiki quer dizer “demônio honrado”.

Incrivelmente, o menino paira no ar sem qualquer apoio, depois de ter surgido do nada no céu.

- Teletransporte? Quirri! Esse tampinha é paranormal?

- Nem precisa dizer, Seiya. Usa a minha telecinese! - grita Kiki, antes que o amigo possa falar qualquer coisa.

Nesse instante, uma espécie de baú rompe o espaço, surgindo numa esfera de luz sobre a cabeça de Seiya. A claridade faz com que os Gigas cubram seus olhos ofuscados. É uma caixa feita de bronze, decorada com imagens de um cavalo alado em baixo relevo. De sua tampa entreaberta escapa um brilho ainda mais forte.

Os invasores assistem, estupefatos, à aparição no céu de uma enorme estátua na forma de um cavalo alado, coberta por uma aura flamejante de raios azuis e brancos. Um verdadeiro legado da era dos mitos... a prova da existência dos Cavaleiros. A mais poderosa fonte de energia do mundo.

- Pégaso!

Com isso a estátua ganha vida e relincha, atendendo ao chamado de Seiya, para então se dividir em várias partes que aderem ao corpo do rapaz.

Cabeça. Ombros. Peito. Braços. Cinturão. Pernas.

- Rá! – o gigantesco corpo de Ágrios é atirado contra a montanha, num impacto tão poderoso que por pouco não abre uma fenda na rocha. Ele tosse e comprime o abdome com força entre os braços, tentando impedir que o conteúdo de seu estômago seja regurgitado.

- Não é possível! Um soco invisível?

- Eu não disse, grandalhão?

Nem o melhor praticante de luta ou arte marcial, seja caratê, boxe ou muay thai, é capaz de derrotar numa única investida um oponente que tenha o triplo do seu peso.

Mas Seiya é diferente: ele domina a luta de Atena. Quando seu punho cortou o vazio, passando bem perto da cabeça de Ágrios, o movimento enviou uma onda de choque – sinal de que o soco fora desferido a uma velocidade superior à do som.

O golpe prova que ele é um guerreiro escolhido pelas constelações espalhadas pela abóbada celeste.

- Ah, é assim? É assim, moleque? – Ágrios se levanta furioso, expulsando com força o ar dos pulmões. Apesar da queda ele está inteiro. Na verdade, seus músculos parecem ter se expandido e seu corpo, crescido ainda mais.

- Você é um cavaleiro.

- Seiya! Meu nome é Seiya, da Constelação de Pégaso.

Esse é um jovem de poder lendário. Sua força vem da estátua de Pégaso, que sai de sua caixa dourada e se rompe em pedaços para formar uma impenetrável armadura protetora.

As asas do cavalo se dobram magistralmente como um leque, encaixando-se em suas costas. Sua cabeça toma a forma de um elmo e seu corpo se transforma num escudo peitoral. O que era o pescoço do animal agora cobre o braço direito de Seiya, enquanto a cauda adere ao braço esquerdo e o peito é um cinturão. As patas dianteiras e traseiras se mesclam de forma complexa, protegendo as pernas do jovem das unhas dos pés até os quadris. A poeira estelar se espalha, cintilando no ar.

O traje celestial de Seiya está completo. É sua a armadura sagrada permitida apenas aos cavaleiros escolhidos por Atena.

- É bom que vocês saibam – grita o garoto. – Eu estou MUITO bravo!

O traje branco-azulado de Pégaso provoca em Seiya uma explosão de energia.

- Meteoro de Pégaso!

- Como?! Os punhos se multiplicaram? - pergunta-se a besta enquanto fachos de luz se espalham por todos os lados.

De repente um ruído abafado interrompe o golpe supersônico do punho de Seiya. O movimento é contido pela armadura de Toas, “o relâmpago célere”, que até então se limitava a assistir à luta.

- Esfrie a cabeça, Ágrios. - diz o segundo gigante, colocando-se diante de Seiya. – Você nem percebe como esse ataque é limitado! Punhos multiplicados que nada! A mim pareceu que cada soco se arrastava como uma lesma.

- Como esse cara pode ser tão veloz...? - Seiya está surpreso e confuso. Toas fora capaz de repelir todo o fluxo de golpes e ainda segurar seu punho.

- É verdade que não se deve subestimar o poder de um cavaleiro em seu traje sagrado – continua Toas, apertando com mais força ainda o punho do garoto. – Você vai ver uma coisa, moleque!

- Quirri! Analise bem a situação... – provoca Pallas. – Você acha que um cavaleiro tem chance contra três de nós?

- Droga – Seiya está cercado.

Os três Gigas começam a exercer uma pressão invisível que faz com que Kiki perca a concentração e caiai com tudo no chão.

- Ai! O que foi essa telepatia? - antes de conseguir se recompor, o menino assiste, perplexo, à chegada de mais um invasor, que aparece trazendo nos ombros Yuuri do Sextante, desmaiada.

- Senhorita Yuuri?! - reconhece a garota por seu cabelo prateado e a túnica escarlate dos oficiantes do Santuário, mas ela está inconsciente e não reage à menção de seu nome.

Seiya não entende por que não detectou de antemão a presença deste quarto inimigo. É realmente difícil de acreditar. Somente se tivesse uma força avassaladora alguém conseguiria se aproximar de um cavaleiro sem ser percebido.

O novo invasor desaparece logo em seguida, rápida e silenciosamente, levando Yuuri consigo.

- Sumiu! Como? - Seiya não sabe o que pensar.

- Bom, agora Ágrios, Pallas, a nossa brincadeira fica por aqui – diz Toas a seus companheiros. – Esqueceram-se do nosso objetivo original?

- Saco!

- Quirrirri... Tem razão.

Os gigantes recolhem seus punhos, para grande supresa de Seiya.

- Moleque... vai ter volta...

- Quirrirri! Você escapou desta vez, mas por pouco tempo.

Ágrios e Pallas se cobrem novamente de sombras e desaparecem na noite.

Toas se detém por mais alguns segundos.

- Seiya de Pégaso. Vamos deixar que você viva para que leve o nosso nome a Atena. – diz. – Diga a ela que vá à Sicília se quiser a menina de volta. Nós, os Gigas, estaremos lá. Nós, a descendência dos Deuses Antigos, nascidos da Grã-Terra, aprisionados nas profundezas do vazio fantasma.

Com isso a imagem do último invasor penetra a escuridão, para sumir completamente.

- Mas que droga! O que vocês...? - a voz de Seiya ecoa em vão. Não há mais sinal algum dos inimigos.

O garoto parece despertar de um pesadelo. Não fosse pelos cadáveres dos soldados rasos e pelo odor hostil deixado pelas criaturas, poderia jurar que nada daquilo tinha acontecido.

- Gigas... das profundezas do vazio fantasma...?


Parte 3

A Sala do Mestre fica logo na entrada do Templo de Atena, além das Doze Casas Zodiacais. O Mestre é o líder supremo dos Cavaleiros, o servo mais importante de Atena.

- A senhora Yuuri foi sequestrada? - Shun voltou ao Santuário logo após a confusão no teatro da Acrópole, apresentando-se imediatamente com sua armadura de Andrômeda. O traje tem um brilho cor-de-rosa que lembra mais um vestido de donzela do que a armadura de um guerreiro.

- Droga! Eu estava lá e não pude fazer nada! - Seiya cerra os punhos, inconformado por ter deixado os inimigos escaparem. Ele também está vestido com seu traje celestial, que é essencialmente um uniforme de combate. O fato de os Cavaleiros estarem usando suas armaduras significa que está é uma reunião de guerra. - O senhor não está ferido, sr. Nikol?

- Está tudo bem comigo. Foi mais um susto, o ataque me pegou de surpresa.

Assim como Shun e Seiya, Nikol é um Cavaleiro de Atena.

A Sala do Mestre é cercada por colunas dóricas e adornada com cortinas. No centro do recinto existe um patamar mais alto, coberto por um tapete, onde fica o assento do Mestre. Mas não tem ninguém sentado ali.

O cargo de Mestre está vago. Niko, chefe dos oficiantes, é quem tem cuidado da administração do Santuário.

Você, leitor, saberia dizer quantas constelações existem no céu? Segundo os astrônomos, são 88.

Mas esse não é um fator absoluto, cientificamente falando, assim como não existe uma opinião predominante sobre a descrição de cada constelação. Na verdade, o número “88” foi uma padronização adotada pela União Astronômica Internacional em sua Assembléia Geral de 1930, e se baseia no modelo do astrônomo clássico Ptolomeu. Essa contagem “oficial” mantém aquilo que já era conhecido das civilizações antigas, ao mesmo tempo em que acrescenta descobertas mais recentes, especialmente no que diz respeito às constelações meridionais.

De qualquer forma, não faz muito sentido usar esse dado para contar a história das Armaduras, uma tradição que remonta à Era dos Deuses.

Uma pessoa se torna um Cavaleiro ao ser escolhida como representante de uma constelação específica. O tempo todo esses guerreiros enfrentam batalhas mortais para proteger nosso mundo do Mal. Quando sua própria força não é suficiente, eles recorrem à Graça Divina, através de suas armaduras sagradas – por isso cada Cavaleiro tem sua própria constelação padroeira, seja ela Boreal, Austral ou Zodiacal (teoricamente seriam 24, 48 e 12 de cada tipo, respectivamente).

Existem três gradações entre os Cavaleiros: Ouro, Prata e Bronze.

Os Cavaleiros de Ouro estão acima de todos os outros e são representados pelas doze casas zodiacais – as constelações da astrologia, que também representam os signos, como Áries, Touro e Gêmeos. Os Cavaleiros de Prata são os próximos na ordem hierárquica, seguidos dos Cavaleiros de Bronze. Ainda mais abaixo estão os soldados rasos.

O Mestre é responsável pelo comando de todos esses níveis – portanto é sempre um Cavaleiro de Ouro, geralmente escolhido por seu antecessor no cargo. Já os Oficiantes podem ser Cavaleiros de Prata ou de Bronze. Suas responsabilidades incluem prever a trajetória das estrelas, monitorar sinais de atividade maligna, registrar a história e transmitir o legado dos segredos místicos do Santuário para gerações futuras.

Alguns acreditam que existem 24 Cavaleiros de Bronze e 48 Cavaleiros de Prata, mas, com exceção dos doze Cavaleiros de Ouro, não se sabe exatamente quantos são os guerreiros de cada estirpe. Aparentemente nem mesmo os Mestres conhecem o número total de trajes sagrados existentes.

O Histórico do Santuário, cujos dados são relativamente novos, também não oferece uma resposta exata. Segundo um relato recente, a quantidade máxima possível de Guerreiros Sagrados seria 78. Em outro registro, esse número pula para 88. Há quem diga que os astrônomos se basearam de alguma forma indireta nessa anotação para estabelecer a contagem “oficial” de constelações, mas não existem provas. Além disso, essas teorias se contradizem: por exemplo, sabe-se que existiu até muito pouco tempo atrás um Cavaleiro de Cérberos, embora essa constelação não esteja na lista “oficial” dos astrônomos. O único ponto em comum entre as diferentes versões é a crença de que em nenhum momento todas as armaduras foram utilizadas simultaneamente.

Também não podemos nos esquecer de que o universo não é algo estático. O mapa celeste está em constante transformação: muitas estrelas se incendeiam e se perdem como Novas, e nem mesmo a Estrela Polar permanece imóvel num período de milhões, ou mesmo milhares, de anos.

Todas as pessoas nascem e morrem sob o destino das estrelas. O firmamento e o mundo em que vivemos refletem um ao outro. Se o mundo muda, mudam as estrelas e seu desenho no céu, ou seja, mudam as constelações que determinam os trajes sagrados. Com isso, a própria natureza das armaduras dos Cavaleiros é mutante, e os Guerreiros Sagrados sabem disso.

Apesar de tudo isso, o número “88” se tornou a resposta padrão para a quantidade de constelações e Cavaleiros existentes. Mas, nos dias de hoje, período em que se passa a nossa história, não existe nem mesmo a metade desses guerreiros com Atena na Terra.

- Pelo que o Seiya está dizendo, pode haver uma relação entre as pessoas que me atacou no teatro e os invasores que sequestraram Yuuri – diz Nikol, que ainda sente alguma dor e por isso vez por outra comprime os músculos do rosto.

- Mas você é um Cavaleiro de Prata, como ficou em desvantagem?

- Seiya, nem sei o que dizer – Nikol ainda está confuso e envergonhado. – Sinto muito... por Yuuri também.

Yuuri é uma Amazona de Bronze, equiparando-se a Shun em hierarquia e poder de combate, mesmo sendo mulher. Como demonstrado no golpe que Seiya acertou em Ágrios, a essência divina das técnicas de luta dos Guerreiros Sagrados não tem relação alguma com força bruta ou capacidade muscular.

- O que está acontecendo? Qual é o objetivo desses inimigos?

- Pelo menos nada aconteceu a nossa Atena. Felizmente.

- Como você pode dizer a palavra “felizmente” numa hora dessas, Nikol? – a voz suave inunda a sala com uma carga de afeto e bondade.

As cortinas se abrem, revelando a figura de uma menina-moça. É a deusa da guerra e da sabedoria. A eterna virgem.

Zeus, deus dos céus; Poseidon, senhor dos mares; Hades, mestre do inferno. Arena, protetora da terra – com poder equiparado ao dessas três entidades supremas.

- Atena – Nikol dobra o joelho na reverência que se acostumou há muito a fazer.

- não se pode falar em algo “feliz” quando a vida de um dos meus amados Cavaleiros está em perigo. – continua Atena, mantendo uma postura altiva.

A figura feminina da deusa é de uma beleza singular. Aparenta mais ou menos a mesma idade de Seiya e Shun, tem longos cabelos castanhos na altura da cintura e veste um gracioso vestido branco. Não é nada diferente de uma garota comum, mesmo considerando sua extraordinária beleza. - Foram palavras impensadas. Perdoe-me, Atena – desculpa-se Nikol, curvando-se ainda mais.

- Não se culpe. Por favor, levante a cabeça.

A deusa transmite sua autoridade no modo como estende a mão a Nikol, um homem aparentemente muito mais velho que ela (o que não poderia estar mais distante da realidade, como sabemos).

- Os Gigas...

- Sim, eu já sei. – Sua voz envolvente também transmite uma característica divina, manifestando sua vontade de deusa a cada palavra pronunciada. Afinal, a jovem é a própria Atena, a encarnação dessa divindade nos dias de hoje.

- Quem são esses tais Gigas?

- São os gigantes das fábulas gregas, Seiya – responde Nikol.

- Ah... Fábulas...

- Qualquer dia você vem comigo até a biblioteca para aprender a história da criação do céu e da terra.

- Ããã... acho que não vai dar – responde Seiya, tocando o próprio rosto num gesto meio constrangido.

- Os Gigas são a própria origem etimológica da palavra “gigante” – explica Nikol com sua paciência inabalável.

- Gigantes como os das histórias para crianças? Tudo bem, os caras que vieram aqui são grandes, mas dizer que são gigantes é exagero.

- Deixe-me contar a história dos Gigas – continua Nikol, como se fosse um professor. – Ela começa na longínqua Era dos Deuses, algum tempo depois do surgimento dos Cavaleiros e de sua primeira luta, a batalha contra o exército de Poseidon, travada nas terras da Ática.

Na sala agora ouve-se apenas a voz de Nikol, enquanto os outros escutam com atenção.

- Foi nessa época que os Gigas declararam guerra contra os Cavaleiros, com o objetivo de dominar o mundo. Esses antigos deuses malignos eram diferentes das entidades olímpicas como Poseidon e Hades. Chamavam a si mesmos de “Filhos da Grã-Terra” e se protegiam com armaduras de Adamas, material ainda mais resistente que o Oricalco. Eram seres dotados de uma força avassaladora, e a batalha entre eles e os Cavaleiros teve proporções épicas. Nossa vitória foi conquistada com muito custo, e apenas graças à presença da própria Atena nos campos de batalha. Quase nenhum Cavaleiro sobreviveu.

- Nem consigo imaginar uma guerra tão difícil.

- Mesmo tendo saído vencedora, Atena não pôde destruir os seres malignos, que eram deuses, portanto, imortais. Ela não teve escolha senão exilá-los nas profundezas além do Tártaro, para que sua vontade diabólica jamais invadisse Gaia novamente. Essa é a história da Gigantomaquia.

- Gigantomaquia?

- É o nome da guerra contra os Gigas na mitologia – responde Nikol, solenemente. – Segundo o historiador grego Apolodoro, durante a Gigantomaquia, Atena atirou sobre os Gigas o Monte Etna, que fica na Sicília, para aprisioná-los.

- Peraí, você disse Sicília? – pergunta Seiya. – Atena... os invasores do Santuário, esses Gigas de que vocês estão falando, eles disseram que estavam levando a Yuuri para a Sicília.

- Mas eu não entendo – neste momento, a voz da deusa carrega o peso de sua dor pelo que pode estar acontecendo a Yuuri. – Por que não me atacaram diretamente?

- Estamos todos preocupados com a segurança de Yuuri, mas, antes de mais nada, precisamos descobrir por que os Gigas estão de volta justo agora, eles que estavam aprisionados desde tempos imemoriais.

- Vamos até a Sicília – diz Atena em um tom subitamente confiante.

- Você quer ir pessoalmente, deusa?! Nunca permitiríamos uma coisa dessas.

- Nikol... – a voz da jovem transborda compaixão. – Fico feliz que você se preocupe comigo, mas não posso abandonar meus Cavaleiros. Que espécie de mãe deixaria seus filhos para trás?

A imagem da garota se referindo aos Guerreiros Sagrados como seus filhos é muito poética, e demonstra sua inabalável determinação em protegê-los. Uma deusa disposta a lutar por aqueles que ama.

- É o seguinte...! – o tom mais alto de Seiya interrompe o momento solene. – Ainda não saquei qual é a desses Gigas aí, mas não dá pra ficar sentado aqui sabendo exatamente onde os caras estão. Eu vou até lá!

- Eu também – concorda Shun.

Ainda temendo pela segurança de Atena, Nikol decide tomar as rédeas da situação, usando sua autoridae como Mestre interino.

- Então vão os dois – e com isso a missão é oficialmente transferida a Seiya e Shun, que a aceitam com vigor. – O primeiro passo é investigar as forças inimigas – acrescenta Nikol. – Só então submeterenis a decisão ao juízo de Atena.

- Mas...

- Já está tudo decidido e providenciado, senhora. – completa, ignorando a tentativa de protesto da deusa.

- Chegueeeei! – uma voz estridente do lado de fora. Kiki se junta aos outros na Sala do Mestre.

- Bom trabalho, Kiki.

- Nossa, senhor Niko, você gosta de abusar da gente, hein? – diz o menino em seu tom infantil e animado. – Tudo bem que a Sicília fica a meros 800 quilômetros daqui, mas deu um trabalho danado atravessar duas vezes o Mar Iônico e a Península Italiana!

- Você já foi e voltou da Sicília, Kiki?

- Pois é! – Kiki lança uma piscadela para Seiya.

- Você parece estar muito bem – diz Nikol, sorrindo. – Tem energia de sobra para reclamar...

O teletransporte provoca um enorme cansaço espiritual, especialmente em uma jornada de ida e volta sem descanso como essa.

- Eu pedi a Kiki que trouxesse um guia de lá – explica Nikol.

- E eu vou falar uma coisa, teletransportar alguém cansa duas vezes mais! - Kiki não pára de tagarelar, sentando-se no chão. - Não, cansa quatro vezes mais!

- Um guia? - Seiya ainda está bastante confuso.

- Vocês vão precisar de alguém para mostrar o caminho. - a resposta é dada por uma nova voz. - A Sicília é a maior ilha do Mediterrâneo. Você não quer ficar perdido por lá, né, Seiya?

O garoto recém-chegado fala com ironia e dá um tapinha no ombro de Seiya, demonstrando intimidade. Mas o Cavaleiro de Pégaso parece não ter a menor ideia de quem se trata. O "estranho" é uns 10 centímetros mais alto que ele e aparenta ser dois ou três anos mais velho. Tem uma tatuagem no braço e usa roupas esfarrapadas que poderiam pertencer a um menino de rua. Seu cabelo comprido e tingido de prateado está penteado para trás, fazendo com que sua expressão lembre a de um lobo.

- Quem é você?

- Ha! Ha! Não faz essa cara feia! Você continua igualzinho a quando era moleque, já vem querendo arrumar briga logo de cara. - O jovem caçoa de Seiya num tom amigável e nitidamente saudoso.

- Quando eu era moleque...? Ei, você é o Mei!

A constatação faz com que Seiya, Shun e até mesmo Atena voltem no tempo por alguns instantes. A presença do amigo de infância traz lembranças antigas que iluminam e transformam o rosto de todos. A encarnação da deusa, tão imponente até há pouco, parece se tornar a garotinha de poucos anos atrás.

- É você mesmo, Mei?

- Você continua o mesmo, Seiya. E você, Shun, nossa, como você era chorão! E... - o jovem de cabelos prateados fica mais sério ao se virar na direção de Atena. - É um enorme prazer reencontrá-la, Senhorita Saori.


Sicília

Parte 1

- Nem acredito que você está vivo, Mei! - diz, retornando ao seu lugar no avião depois de ter ido buscar algo para beber.

Estamos em pleno vôo. Este avião não tem janelas, nem poltronas. Os assentos são lonas esticadas, suspensas por tubos fixos nos dois lados da cabine. O espaço é apertado: se Seiya estivesse sentado de frente para os amigos, estaria praticamente batendo seus joelhos nos deles. Pela decoração, parece mais uma aeronave militar do que um avião de passageiros.

- Não tem nada que ficar surpreso não, cara. Você e o Shun não estão vivos? O mais normal era mesmo eu sobreviver.

- Normal, você? Aaiii! - grita Seiya quando Mei aperta com alguma força o punho contra sua bochecha.

- Pensa bem, Seiya! Alguma vez você já ganhou de mim numa briga?

- Isso foi quando eu tinha 7 anos! Você é dois anos mais velho, e naquela idade isso faz muita diferença.

- Ha! Mas você continua sendo um pirralho.

Shun não resiste e dá uma risadinha ao ver a cara emburrada de Seiya. Os dois Cavaleiros estão usando seus trajes sagrados, e levam as caixas de Pégaso e Andrômeda no compartimento de carga, na traseira da aeronave. Trata-se de um Tiltrotor, com capacidade para cera de dez passageiros. Suas asas possuem rotores móveis, e do lado de fora lê-se a inscrição "Fundação Graad". Falta menos de meia hora para o pouso na Sicília.

- Só que se eu chamasse vocês pra briga hoje em dia ia perder com certeza. Mesmo do Shun, que vivia chorando... Vocês agora são Cavaleiros. Eu não consegui.

- Não conseguiu?

- Eu sobrevivi, mas não recebi a armadura - continua Mei, num tom ligeiramente sarcástico. – Não passo de um soldado raso. Uma estrela anã - e então, olhando de relance para Shun, de um jeito surpreendentemente sério: - Quantos...? - pergunta, cabisbaixo - Quantos sobreviveram?

- Dez.

- Com você, onze. – diz Shun, bem baixinho.

- Nossa, só dez...

Neste ponto se faz necessário interromper a nossa história e fazer uma pequena jornada ao passado.

As lutas travadas entre Atena e outros deuses pela posse da Terra são as chamadas “Guerras Santas”. A última desse tipo aconteceu pouco mais de dez anos atrás, quando a nova reencarnação de Atena desceu sobre o Santuário. A deusa era apenas um bebê, e de cara teve que enfrentar um ataque.

A sombra do Mal dominou a Região Sagrada quando Saga de Gêmeos, um dos Cavaleiros de Ouro, foi tomado por sentimentos perversos, querendo se tornar o Senhor da Terra. Possuído pela ambição, Saga assassinou secretamente o Mestre daquela época, voltando-se depois contra a indefesa Atena.

Felizmente, o Cavaleiro de Ouro Aiolos de Sagitário conseguiu salvar a deusa antes que ela se tornasse vitima da lâmina afiada de Saga. Atena foi confiada a um senhor chamado Mitsumasa Kido, que a levou para o distante Japão, batizou-a de Saori Kido e a criou como sua neta.

Mitsumasa Kido, criador da Fundação Graad, era um dos homens mais ricos e poderosos do mundo. Depois de colocar Atena sob sua proteção, Kido ofereceu os cem filhos que tivera com amantes em sacrifício, pedindo em troca que fossem consagrados como Cavaleiros da deusa e retornassem com as Armduras Sagradas. O velho jamais reconheceu a paternidade desses meninos, tratando-os como órfãos e lançando-os à própria sorte pelos quatro cantos da Terra.

As táticas de treinamento nas artes de combate de Atena superam o absurdo. Fraquejar é sinônimo de morte e busca de se juntar aos mais poderosos guerreiros da Terra. Os aspirantes foram submetidos a florestas povoadas de animais selvagens, desertos impiedosos, montanhas onde respirar é um suplício, planícies gélidas onde o frio leva uma pessoa à morte em menos de cinco minutos, ilhas vulcânicas com calor infernal e gases tóxicos.

Praticamente todos os filhos de Mitsumasa Kido morreram nesse processo, enviados ao inferno pelo próprio pai. Apenas dez deles conseguiram completar esse treinamento extremo e, eleitos pelas Constelações, retornaram milagrosamente com os trajes sagrados. Entre esses poucos estão Seiya e Shun.

Não há espaço aqui para descrever em detalhes o conflito que aconteceu no Santuário e ficou conhecido como “a Revolta de Saga”. O leitor interessado pode procurar se informar numa biblioteca, onde certamente encontrará registros dessa série de batalhas. Foram treze anos, desde o encontro do herói Aiolos com o velho Kido, passando pelo Despertar de Atena (Saori Kido) e culminando na derrota de Saga, quando finalmente a deusa conseguiu retornar à Região Sagrada.

Entre os aspectos mais dramáticos desse período está a descoberta, por parte dos dez órfãos sobreviventes, de que a neta do velho Kido, a quem alguns chegaram a odiar, era na verdade a deusa Atena. Ou a consciência de que seu pai os oferecera em sacrifício para criar os Santos Guerreiros que viriam a defendê-la.

Ao reconhecerem Saori como a verdadeira Atena, Seiya e seus companheiros conseguiram superar a própria infância infeliz e, o mais importante, derrotaram o maligno Saga, tirando o Santuário de seu poder.

Não podemos esquecer que é a custo de inúmeros sacrifícios e incontáveis perdas, e gracas ao grandioso amor de Atena, que a paz na Terra vem sendo preservada.

- Seiya, você foi mandado para a Grécia, certo? E Shun, você foi para... a ilha de Andrômeda, é isso?

- E você foi parar na Sicília.

- Isso. Mas eu não fui chamado de volta pela Fundação Graad depois do treinamento. O que ele disseram que tinha acontecido comigo?

- Acho que fizeram um atestado de óbito em seu nome. Quem quer ser Cavaleiro tem que conquistar a Armadura de qualquer jeito. As outras alternativas são fugir, morrer, ou viver totalmente isolado, como um soldado anônimo.

- Sei, entendi - os olhos de Mei parecem perder-se no vazio. - Meu mestre foi morto na Revolta de Saga e eu não tinha ninguém para me treinar. - O jovem faz uma brece pausa para respira. - Acabei ficando na Sicília, servindo como uma espécie de espião do Santuário. O que hoje eles chama de “agente operacional de campo”, eu acho.

- O mais importante é que você está vivo, Mei. Cara, eu estou muito feliz com isso, de verdade.

- Valeu.

A empatia que os três meninos sentem um pelo outro tem raízes ainda mais profundas que a camaradagem conquistada por terem sobrevivido ao treinamento para se tornarem Cavaleiros. Apesar de terem mães diferentes, são todos irmãos.

- Você sabia sobre o nosso pai? - pergunta Shun, cuidadosamente.

- Eu sempre soube. Desde quando estava num dos orfanatos da Fundação Graad. - Mei continua, agora abrindo um sorriso. - Mas que a senhorita Saori era a reencarnação viva de Atena, isso eu não sabia! - completa, soltando uma risada insolente.

- Nossa, essa aí pegou todo mundo se surpresa!

- Olha o respeito, Seiya - diz Shun, num tom bastante sério.

- Até parece, Shun! Fala sério, você lembra muito bem que ela era uma menina mimada, arrogante e cheia das vontades.

De fato, a Saori Kido de hoje é a imagem perfeita da grande deusa Atena, símbolo de amor e confiança absolutos, mas ela não foi sempre assim. Quando criança, chamava a atenção apenas pela beleza física, causando impressão de grande soberba. O Despertar da Vontade de Atena só aconteceu depois de seu desenvolvimento físico. Antes disso, para órfãos como Seiya e os outros, Saori - que recebia amor e mimo de Mitsumasa Kido - não passava de alvo de ciúme e de rancor.

- Não foi com você, Seiya, aquela história do “seja o meu cavalo”?

- Se liga, foi o Jabu! Nem se ela me chicoteasse eu fingiria que era um cavalo!

- Jabu... É, eu lembro de um cara com esse nome... - Mei está cabisbaixo, os olhos virados na direção dos braços, dobrados sobre os olhos. Só depois de fazer uma pequena pausa, cria coragem para fazer a pergunta mais difícil: - Quem são os outros oito que sobreviveram?

- Você não sabe?

- Eu nunca saí da Sicília, não sei quase nada sobre os Cavaleiros do Santuário. Eu nem sabia que vocês estavam bem até nos encontrarmos agora há pouco.

De fato, nem todos têm acesso ao nome dos Cavaleiros. É uma espécie de segredo militar, como muitas das informações sobre a Região Sagrada. Soldados de hierarquia inferior, como Mei, em geral conhecem um número mínimo de Cavaleiros.

Shun diz os nomes dos seus irmãos sobreviventes, um por um:

- Shiryu, Hyoga, Ikki.

- O seu irmão? – pergunta Mei, lembrando que Ikki é irmão de pai e mãe de Shun – e também que os dois não são nada parecidos em termos de temperamento, muito pelo contrário; enquanto Shun tem maneiras delicadas, chegando a lembrar uma menina, Ikki é seu oposto perfeito, um rapaz bruto e durão, grande apreciador de artes marciais.

- Mei se emociona com a lista de Cavaleiros sobreviventes. Consegue se lembrar direitinho do rosto de cada um deles.

- ... e o Jabu, Dez no total – é Seiya quem conclui a contagem.

- Qual é a estrela dele?

- Unicórnio.

- Haha! - Mei não consegue conter o riso.

- Não é perfeito? - concorda Seiya.

- Com certeza! Unicórnio é o bicho que só aceita ser cavalgado por donzelas, né? E aquele cara sempre ficava abanando o rabo para a Saori, até corria pra brincar de cavalinho com ela.

- E continua o mesmo até hoje. Não mudou nadinha.

- Nem vocês - completa Mei - Conseguiram virar Cavaleiros, mas não mudaram nem um pouco!

- Nem você, Mei - confirma Shun.

- O Jabu está na Argélia – conta Seiya. – O Shiryu está nos Cinco Picos Antigos de Rozan, na China, e o Hyoga, na Sibéria Oriental. A maioria dos outros também continua cumprindo seu papel de Cavaleiros nos lugares onde foram treinados.

- Só não conseguimos descobrir onde está o meu irmão Ikki.

- Bom, desde moleque ele gosta de bancar o lobo solitário...

Neste momento, o alto-falante anuncia que já estão sobrevoando espaço aéreo siciliano. O vôo da Grécia até ali foi curto demais para matar saudades.

Seiya e Shun correm em direção a suas armaduras, enquanto Nikol, que não participou da conversa por estar pilotando o avião, anuncia secamente:

- Vamos abrir a porta traseira e diminuir a altitude. Vocês três vão pular.

- É brincadeira, né? - Seiya faz uma careta.

Mas a coisa é séria:

- Este bichinho bebe muito combustível a cada aterrissagem e decolagem - explica Nikol - Temos medo de que não tenhamos o suficiente para voltar ao Santuário.

- Mas você só pensa em si mesmo, Nikol? Quem vai garantir a nossa segurança? – resmunga Seiya.

Talvez o leitor esteja surpreso com que um Cavaleiro como Nikol, da Constelação de Altar, seja capaz de pilotar uma aeronave de tecnologia avançada como este Tiltrotor. Mas, embora os Guerreiros de Atena sejam entidades completamente isoladas do cotidiano mundano. Isso não significa que não se relacionem com ele. Sua missão não é proteger um universo fantasioso de conto de fadas, e sim o planeta onde vivemos. Os Cavaleiros também são mutantes, assim como o céu e a Terra, e evoluem com eles.

Mais conformado com a idéia de mergulhar no vazio, Seiya avança com Shun para a porta traseira, que está aberta e deixa entrar na cabine intensas correntes de ar. Estão a dez metros do chão, por isso não adiantaria tentar usar pára-quedas.

- Prontos? - pergunta Mei, sua voz abafada pelo som do vento cortante, e então: - Fui! - e salta do avião.

- Que Atena os proteja. - diz Nikol, enquanto Seiya e Shun se atiram atrás de Mei no escuro mar da Sicília.


Parte 2

Se pensarmos na Península Italiana com seu formato de bota, a ilha da Sicília fica a poucos quilômetros do bico do sapato, separada do continente pelo Estreito de Messina. É uma localização privilegiada no Mar Mediterrâneo: do seu extremo oeste, é possível enxergar o continente africano.

Essa é a maior ilha da região, com mais ou menos a mesma área do estado de Sergipe, no Brasil. Seu formato triangular lhe valeu a alcunha Trincacria (“ilha de três pontas”). A Sicília tem clima ameno e solo fértil, o que, juntamente com sua posição estratégica no mapa europeu, fez com que fosse objeto de inúmeras disputas e guerras ao longo da história.

Na Antiguidade, prosperavam aqui colônias gregas. Anos mais tarde, a região ficou conhecida como “Celeiro de Roma”. Depois houve as invasões bárbaras e a dominação pelo Império Bizantino. Na Idade Média, a ilha foi conquistada por árabes vindos da África, e, no século XI, os normandos, descendentes de vikings nórdicos, aliaram-se às forças islâmicas para estabelecer o Reino da Sicília, que em certo ponto chegou até mesmo a dominar o sul da Itália.

O trono siciliano passou por várias famílias e tradições monárquicas: o Sacro Império Romano Germânico; a casa de Anjou, francesa; os de Aragão, espanhóis; e a de Habsurgo. No século XIX, fundiu-se à região Nápoles, tendo origem o que ficou conhecido como "O Reino das Duas Sicílias". Finalmente, em 1861, a Sicília foi anexada à Itália, país do qual ainda faz parte nos dias de hoje, apesar de sua cultura e trajetória histórica completamente independentes.

Habitada por povos de múltiplas origens e línguas, a Sicília é diversificada, colorida, e freqüentemente complexa como um mosaico. Seu próprio nome já teve inúmeras variações, como Siquéria, adotado quando era uma colônia grega, ou Siquília, na época da dominação romana. Da mesma forma, a cidade de Siracusa, ao sudeste da ilha e famosa por ser a terra de Arquimedes, recebeu diferentes denominações ao longo de sua história, como Surakusai, Siragosa, Siracuza.

A arquitetura siciliana é um de seus grandes destaques, uma combinação harmoniosa das culturas mediterrâneas medievais - bizantina, islâmica e gótica - e do casario barroco, adotado a partir da Idade Moderna. Ao meso tempo, poucos lugares conservam tantos traços da Grécia Antiga. Espalham-se pela ilha ruínas de monumentos erguidos em honra aos deuses do Olimpo, como os templos encontrados no vale de Agrigento, além de inúmeros e grandiosos teatros e arenas.

Vários episódios da mitologia grega têm a Sicília como cenário, como a já mencionada Gigantomaquia. Por exemplo, diz a lenda que Odisseu, um dos maiores heróis dos poemas épicos gregos, travou uma batalha dificílima com o monstro marinho Sylla bem aqui no estreito de Messina.

- O que vem à sua mente quando ouve falar na Sicília? - pergunta Mei. Os amigos se refugiaram em uma ilhota pequena e escura, de onde Mei observa o antigo teatro de Taormina. Chegaram ali nadando depois do arriscado salto: o que seria suicídio para as pessoas comuns não era nada comparado ao treinamento a que os três tinham se submetido para se tornarem Cavaleiros.

Seiya pensa um pouco e diz:

- Máfia.

- Por causa de O Poderoso Chefão, né? - brinca Mei. - Na verdade esse assunto é tabu por aqui! Mas a Sicília é muito mais segura do que o continente, sabia?

Taormina fica na costa leste da ilha, com população de cerca de 10 mil habitantes. Incrustada em um declive no Monte Tauro, a 400 metros de altitude, a cidade tem uma magnífica vista para o mar. Sua beleza natural já lhe valeu a inclusão como cenário de muitos filmes, e fez da região um centro turístico mundialmente famoso.

A área urbana de Taormina é antiga e, como acontece com muitas cidades europeias, predominam calçadas e ruas estreitas. O calçamento é todo feito de pedra e cheio de degraus, completamente inadequado para os automóveis de hoje em dia, e praticamente não existem estacionamentos ali. Da entrada número 114, à beira-mar, partem gôndolas levando turistas que visitam a cidade.

- Tem uma frase legal sobre a Sicília - conta Mei -, "Nas terras ocupadas pelas oliveiras e pelos deuses do Olimpo, podem nascer estúpidos e gênios, mas jamais verdadeiros criminosos". É algo que o meu falecido mestre dizia.

- Olha... Mei. Nós não viemos aqui fazer turismo - suspira Shun.

- Eu sei, cara.

Os Cavaleiros foram mandados para a Sicília depois do ataque ao Santuário, mas não têm idéia do paradeiro dos invasores.

- Você sabe onde podemos encontrar esses Gigas?

- Shun, seu não soubesse, não teria sido chamado à Região Sagrada. Não um mero soldado raso como eu - Mei aponta na direção da fachada do teatro. Através da parede de arcos é possível ver o Mar Iônico à esquerda e Taormina à direita, separados pela faixa litorânea que se estende na direção sudoeste. Ainda mais adiante nesta espetacular paisagem está uma montanha que passa impressão de intensa personalidade.

- O Monte Etna - sussurra Shun.

Trata-se do maior vulcão ativo de toda a Europa, com 3.340 metros de altura. Por suas muitas erupções e grande quantidade de lava derramada, o monte tem um aclive muito suave e não exageradamente inclinado. Do seu cume brota uma intensa fumaça cinzenta.

- Segundo as lendas gregas - explica Mei - os Gigas soterrados por Atena sob o Etna sofrem tanto que cospem chamas e fumaça.

- Nossa, como está escuro - interrompe Seiya. - Já era para ter amanhecido, ou não?

O sol é pouco mais do que um círculo apagado no céu, e toda a ilha está coberta por uma espécie de meia-luz. Apesar de estarmos no auge do verão, não tem quase ninguém em Taormina, e o lugar parece mais uma cidade fantasma.

- O Etna está numa fase de intensa atividade, eu vi na TV - explica Mei. - A terra treme a toda hora, o aeroporto está fechado por causa das cinzas vulcânicas e a corrente de lava já chegou à beira da cidade, que declarou estado de emergência. Isso explica por que Taormina está tão deserta neste verão, sendo que normalmente é um agitadíssimo centro turístico.

- A população foi evacuada da área?

- Exatamente. Normalmente poderíamos subir uma parte do Etna de carro, mas hoje as estradas estão bloqueadas pelo Exército.

- Droga - reclama Seiya, coçando a cabeça. - Então a gente vai ter que ir a pé.

- Primeiro, um banho de mar. Agora, caminhada pela montanha. Suas férias de verão estão ficando completas, Seiya! - brinca Mei.

- É até melhor... podemos agir sem termos que nos preocupar com os moradores ou turistas.

- Se os Gigas realmente estão de volta, a primeira coisa é verificar se os laços de Atena estão atados.

- Como, aliás, o senhor Nikol ordenou.

- Segundo o meu mestre - diz Mei, com o olhar na direção da cratera - os laços de Atena estão nas profundezas do Etna.

- Falou! Então vamos? - mas, antes que Shun e Mei possam responder...

- Bem-vindos, cachorros de Atena!

Com o susto, os garotos se levantam em posição de alerta. Sombras saltam de diferentes pontos do teatro a céu aberto.

- Preciso parabenizá-lo por ter vindo tão rápido ao encontro da morte, Pégaso!

- Ágrios! - Seiya reconhece o gigante com quem lutou no Santuário. E ele não está sozinho.

- Só mandaram três pessoas? Os Cavaleiros devem estar com falta de pessoal.

- E esses menininhos ainda! Mamãe mandou fazer compras, foi? Quirrirri...

No palco estão Ágrios, "a força brutal"; Toas, "o relâmpago célere", e Pallas, "o parvo", armado com as "garras marionetes". Seus trajes de Adamas reflete um brilho turvo sob o céu escurecido.

- Shun, são Gigas que invadiram o Santuário ontem! - mais uma vez Seiya é interrompido, agora por uma nova presença que surge do poço no centro do palco.

- O quê? Argh, que cheiro horrível! - Seiya cobre sua boca instintivamente, sentindo uma terrível ânsia de vômito. É como se estivessem empurrando seu rosto para dentro de um saco de carniça e excrementos.

- Espera aí...! - diz Shun - Minha corrente está reagindo a esta presença...

A corrente amarrada ao traje sagrado de Andrômeda treme como se tivesse sido atingida por um relâmpago.

- É ele! É o cara que me atacou no teatro!

A sombra do quarto Giga aparece de repente em meio a um redemoinho de fumaça negra. Seu vozeirão poderosíssimo reverbera na arena e faz com que todo o lugar trema com a vibração:

- Meu nome é Encélado, o "brado de combate".


Parte 3

Sou Encélado! O sumo sacerdote dos Gigas! - com isso, ondas vibratórias percorreram o ar, chocando-se contra as ruínas e causando várias explosões concêntricas.

A força inacreditável dessa voz arremessa Seiya, Shun e Mei até o último degrau da arquibancada.

- Que raio de voz é essa? Meu corpo está formigando...

-Ele é o chefe dos Gigas?

Neste momento, Mei é arremessado novamente, agora contra a parede, e seu corpo cai pesadamente no chão.

- De onde está vindo essa pressão...? - pergunta o jovem, cuspindo uma mistura de saliva e sangue.

Mei está particularmente vulnerável por não ter um traje sagrado para protegê-lo, como Shun e Seiya, que vestem as armaduras mais poderosas da Terra, feitas de uma liga de supermetais hoje desconhecidos da humanidade, como Oricalco, Gamanion e Poeira Estelar.

- Onde está a vadia da Atena? - Encélado carrega uma bengala esculpida com imagens de monstros de terras desconhecidas. Seu rosto se esconde atrás de uma máscara com as feições de Orga, o demônio devorador de pessoas. Sua armadura de Adamas, ricamente adornada, tem cor amarelada como um topázio eclipsado, e é comprida como uma batina de padre. - Aquela burra mandou Bronze para nos atacar! A hierarquia mais baixa! Pelo jeito, ela ainda não acredita que nós, os Gigas, retornamos!

- Ei, pode xingar a gente, mas deixa a Atena fora disso! - Seiya sente o sangue subir à cabeça.

- Ha! Uma meretriz ordinária posando de protetora da Terra. E vocês são piores ainda, meros cachorrinhos dela! O Deus primordial que honramos nem sequer reconhece a sua laia! - Encélado está claramente tentando irritar os Cavaleiros com essas ofensas. - Atena nos trancafiou nas profundezas do Vazio... Imperdoável! Agora queremos vingança! - o monstro continua seu jogo de provocações: - Arrancaremos as vestes de Atena e a humilharemos como uma filha comum de homens mortais!

- Como pode... - mesmo o olhar de Shun, normalmente calmo e sereno, arma-se de uma forte animosidade.

- Então os Gigas estão mesmo de volta... - diz Mei, levantando-se e limpando o sangue do rosto. - Isso significa que o Selo de Atena foi rompido.

- Como conseguiram quebrar o selo da antiga Gigantomaquia?

- O que vocês fizeram com a senhorita Yuuri? - Seiya faz a pergunta olhando fixamente para o sumo sacerdote dos Gigas.

- Aquela criança...?

- Quirrirri! Medíocre, medíocre, medíocre, medíocre, medíocre! Os pretensos protetores da Terra são meros covardes que se apavoram com uma refém? Faça-me rir - intromete-se Pallas, "o parvo".

- Não a matamos. Aquela criança está numa caverna subterrânea – Encélado aponta com a bengala para o Monte Etna. – Se querem salvá-la, é melhor que sejam rápidos. Mesmo sendo uma Amazona, logo morrerá se continuar aspirando os gases venenosos do vulcão. Isso se as cavernas não forem pelos ares em uma erupção.

Mei percebe que não podem continuar ali, precisam ir em busca de Yuuri imediatamente:

- Seiya, Shun! Sigam-me!

É difícil dar as costas a Encélado depois de todas as provocações, mas esta luta tem que ficar para depois. Os meninos correm em direção ao Monte Etna, evitando a zona urbana de Taormina, numa velocidade tão incrível que não deixam nem sombras no chão. Mesmo sem poderes extra-sensoriais como o teletransporte, a agilidade e os saltos de um Cavaleiro são imensamente superiores aos de um ser humano comum.

A cidade fica para trás rapidamente, dando lugar a colinas com plantações cercadas de muros de pedras e arbustos. Tudo ali está coberto por cinzas do vulcão.

- Mas como? – pergunta-se Shun, enquanto Toas, “o relâmpago célere” vem atrás dele, como uma sombra. Pallas, por suavez, está na cola de Mei.

- Ainda não terminamos a explicação... Se quiserem salvar aquela garota...

- Nem precisa dizer. Precisamos derrotar vocês, não é?!

- Você sabe conversar, garoto! – Ágrios, “a força brutal”, arranca em um só golpe uma enorme quantidade de terra, cavando assim uma vasta cratera.

- Agora, o seu adversário, obviamente, serei eu, Pégaso!

Seiya não está a fim de conversa e salta na direção dos Gigas. Se querem lutar agora, que sejam breves, para que possam finalmente salvar a senhorita Yuuri.

O brilho dos trajes de Adamas é de um azul tenebroso. A pesada armadura, com cravos expostos por toda a sua superfície, sinaliza claramente a natureza agressiva das criaturas. Sob o elmo ornado com chifres, Ágrios encara Seiya com um sorriso malicioso.

- Pois venha.

- Meteoro de Pégaso! - o grito do Cavaleiro faz com que surja um ofuscante facho de luz. É o seu golpe mais poderoso. Nenhum oponente resiste em pé aos mais de cem socos por segundo, cada um com a força de Pégaso, caindo sobre seu corpo como uma chuva de estrelas cadentes...

- É só isso? - Ágrios pergunta, sem se mostrar minimamente abaldo pelo Meteoro de Pégaso. Cada vez mais fica claro que os Gigas despertaram para um poder equivalente ao dos Cavaleiros.

O Adamas da armadura de Ágrios não tem sequer um arranhão. Seiya engole seco diante da dor aguda que atravessa seu punho. Por mais poderoso que seja, nenhum corpo consegue resistir ao soco de um Guerreiro sagrado - a essência da destruição, capaz de romper átomos. A única forma de barrar um ataque como esse é com uma força igual ou superior à dos Cavaleiros. Estamos falando da força interior, o chamado Cosmo.

- Eu senti na Região Sagrada - balbucia Seiya, erguendo os braços numa posição defensiva -, mas o Cosmo dele é ainda maior e mais agressivo do que eu imaginava.

Neste momento, Ágrios se inclina para baixo, espirando vigorosamente. Coloca uma das mãos na terra, agachando-se. Seiya assiste horrorizado enquanto explosões internas de força fazem os músculos de aço do Giga se expandir ainda mais.

- Sinta a diferença de forças entre os Cavaleiros... e os Gigas - Ágrios diz, antes de gritar: - Pressão de Penhascos!

O Giga salta na direção de Seiya, chutando o chão para impulsionar seu impetuoso avanço. Seu golpe acerta em cheio o Cavaleiro, que só consegue soltar uma espécie de espasmo abafado.


Parte 4

De volta ao Santuário, na Sala do Mestre. Ao retornar da Sicília, Nikol de Altar encontra Saori Kido - ou seja, Atena - em pé, na mesma posição em que estava quando ele partiu.

- Obrigada pelo seu empenho - diz a deusa. - Como estão Seiya e os outros?

- Levei-os a salvo até a ilha - responde Nikol. - Estão verificando a integridade do Selo de Atena no Monte Etna.

- Parece que o monte está em erupção, com muitos danos.

- É verdade, deusa.

- Será que não é muito perigoso? Fiquei sabendo que a população foi evacuada por causa da lava e dos gases vulcânicos.

- Os Cavaleiros de Atena não temem nenhum perigo ou dificuldade. Além disso, a Fundação Graad já está trabalhando em conjunto com o Exército italiano. A região está isolada num raio de dez quilômetros, certamente não teremos distúrbios desnecessários.

- Muito obrigada, Nikol. O senhor foi muito rápido e prestimoso.

- É o papel do Mestre Substituto - agradece, curvando-se diante da garota. - Pediremos que Kiki nos traga notícias dos acontecimentos na Sicília.

- Sinto muito - diz Atena, ligeiramente cabisbaixa. - Dei outras ordens a Kiki - e continua, depois de uma pausa: - Se os Gigas realmente retornaram, são inimigos terríveis. Por mais que Seiya e Shun sejam Guerreiros Sagrados de inúmeras batalhas, enfrentá-los sozinhos seria...

- Compreendo - interrompe Nikol - Apenas gostaria que tivesse me consultado a respeito antes.

- Acho que sou sentimental demais. - diz a deusa - Não quero que ninguém se machuque... e com isso se derrama sempre o sangue de um grande número de Cavaleiros...

Saori Kido pode parecer emotiva demais para ser uma divindade, mas é exatamente essa a "vontade" de Atena.

- Justamente por serdes assim, Atena, é que nós, Cavaleiros, vos seguimos e vos protegemos - responde Nikol, com a mais absoluta sinceridade e lealdade.

- Que as estrelas os protejam - Atena faz uma prece com seu grandioso Cosmo, desejando aos seus amados Cavaleiros um retorno rápido e seguro.


Parte 5

Não é fácil explicar em palavras a natureza do Cosmo, uma vez que se trata do Sétimo Sentido. Palavras são a própria expressão da sabedoria humana, e estamos lidando com algo completamente alheio à humanidade nos dias de hoje.

O ser humano comum possui basicamente cinco sentidos: visão, audição, paladar, olfato e tato. Existe um sexto sentido, que costuma ser chamado de intuição ou capacidade de premonição, mas apenas aqueles considerados paranormais têm essa dimensão mais desenvolvida.

Em passado longínquo, todas as pessoas eram dotadas do Sétimo Sentido - estávamos na era dos mitos, quando ainda não havia fronteiras nítidas entre os deuses e os seres humanos. Embora esteja presente ainda hoje, de forma sutil, na própria fonte da vida na Terra, o desenvolvimento da civilização fez com que os homens acabassem perdendo essa maravilhosa capacidade.

O Sétimo Sentido é a origem dos poderes sobre-humanos dos Cavaleiros de Atena.

Através dele, os Guerreiros sagrados dominam a técnica de despedaçar átomos, sendo capazes de manipular, queimar e explodir a energia da origem da vida - e por isso são tão poderosos. É dessa incrível habilidade que nasce o Cosmo, uma força grandiosa e ímpar.

No Monte Etna, as plantas da paisagem se tornam cada vez mais esparsas à medida que avançamos em direção ao cume do vulcão. Aqui terremotos ocorrem com freqüência.

As encostas negras estão cobertas de cinzas, cascalhos, pedregulhos e pedaços de lava endurecidos.

- Chega de brincar de pega-pega, garoto de Bronze - Toas, "o relâmpago célere", coloca-se à frente de Shun, bloqueando seu caminho.

O Adamas de sua armadura é de malaquita escura, com pedras incrustadas que lembravam olhos esverdeados. O traje é estranhamente belo e elegante, contrastando com as formas agressivas dotadas de garras e cravos que adornam as armaduras dos demais Gigas.

A expressão de Toas também é diferente da dos outros Gigas. Com cabelos pretos e pele extremamente branca, seu semblante se mantém geralmente sereno. Seu olhar, emoldurado por sobrancelhas marcantes e escuras, pode até mesmo ser considerado tranqüilo. Com certeza - e isso vale para todos os Gigas - sua aparência não lembra em nada a dos gigantes de pinturas inspiradas na mitologia grega, comumente retratados como assustadores demônios de cabelos brancos.

- Este ser possui um Cosmo impressionante - pensa Shun, assustado. Os Cavaleiros se valem mais do Sétimo Sentido do que dos olhos, ouvidos, nariz, pele ou intuição. É através do Cosmo que sua sensibilidade alcança o ponto máximo.

- Será que o Seiya e o Mei estão bem?

- Preocupado com seus companheiros? - Toas lê os pensamentos de Shun com facilidade, usando principalmente o Sétimo Sentido. - Que tranqüilidade a sua, ficar pensando nos outros... - continua o gigante. - É melhor se preocupar primeiro com a própria vida.

- Por que vocês estão provocando este conflito? São responsáveis também pela erupção do Monte Etna?

- E se formos?

- Muitas pessoas vivem aqui! As vítimas das batalhas são sempre pessoas que não têm como se defender. Por que querem destruir tantos inocentes? Querem conquistar a Terra?

Toas responde com outra pergunta:

- Rapaz, você está falando da Guerra Santa?

- Sim, estou.

- O esquecimento é o pior dos crimes, Santo Guerreiro de Atena. Você parece disposto a nos enfrentar sem mesmo saber o motivo. - Giga solta um riso maldoso e começa sua explicação tortuosa. - Antes da Gigantomaquia, antes de sermos exilados nas profundezas do além-Tártaro, já havia Atena na terra, Poseidon no mar e Hades no reino dos mortos. Mais poderoso que eles havia apenas Zeus, nos céus, e os deuses do Olimpo reinavam sobre os três mundos. Poseidon e Hades declararam guerra a Atena inúmeras vezes, como objetivo de dominar a terra... Vocês, Cavaleiros, expulsaram os inimigos e chamaram esses conflitos de Guerras Santas.

- Os Cavaleiros sempre lutaram contra "vontades" malignas e viciadas para proteger o amor e a paz na Terra. - Shun não entende aonde Toas quer chegar com tudo isso.

- Sem dúvida, Atena é a guerreira protetora da terra, isso todos admitem. Agora me diga... Quem Atena e os Cavaleiros defendem?

- Os seres humanos. - responde Shun.

- Tem razão. Os seres humanos, as pessoas da Terra. - faz uma pausa breve. - Rapaz, lute e me mate.

- Como?

- E eu lutarei, e o matarei! Arrancaremos a carne dos ossos um do outro. Basta sobreviver sugando o sangue do inimigo. Não precisa de pretextos edificantes e de linguagem difícil para se justificar.

- O quê...?

- Porém, lembre-se que seremos nós, os Gigas, os vencedores desta batalha. - depois disso, Toas atira o corpo de Shun pelo ar. O Cavaleiro cai no chão escorregadio de cascalho e cinza vulcânica, deslizando pela encosta.

- O que aconteceu? - Shun está cada vez mais confuso. Simplesmente não percebeu o movimento do ataque de Toas.

- Vou matá-lo. - Toas golpeia o Cavaleiro no pescoço antes que ele possa se levantar. nesse momento, um som estridente de metal reverbera enquanto faíscas saltam pelo ar. Toas recua, protegendo o pulso ferido na corrente de Shun, que agora rodeia o cavaleiro em uma espiral frenética que lembra um ciclone. - Essa corrente é uma excelente defesa, garoto.

O leitor que conhece o mapa das constelações celestes deve saber que Andrômeda, que por sinal compartilha uma estrela com a constelação de Pégaso, é representada por uma donzela com as mãos acorrentadas.

Contam as lendas gregas que a rainha Cassiopéia da Etiópia provocara a ira de Poseidon, que passou a devastar o seu país com maremotos e inundações. O rei Cefeus consultou então um oráculo procurando uma forma de apaziguar o poderoso deus dos mares, e o oráculo lhe respondeu que devia oferecer ao grande Poseidon a princesa Andrômeda em sacrifício. Com isso, Cefeus ordenou que a princesa fosse acorrentada a um rochedo, na beira do mar. Andrômeda foi salva pelo herói Perseu, que a resgatou montado em seu cavalo Pégaso. Todos os personagens citados nessa história foram alçados ao céu e transformados em constelações.

- Meu nome é Shun... Shun de Andrômeda. Não é "garoto".

- Ah, isso explica a corrente. Mesmo as flores mais frágeis se vestem de espinhos para se defender. Sua armadura acabou de salvar sua vida.

- Lamento informar que a corrente de Andrômeda não é apenas para defesa. - o Cosmo interior de Shun aumenta a cada palavra. - Ela pode atravessar qualquer espaço para atacar um inimigo, não importa a quantos anos-luz esteja.

Foi essa mesma corrente que suportou a pesada espada do Orestes mascarado na Acrópole. Ela atende à elevação do Cosmo daquele que a possui, rompendo o espaço por si só para protegê-lo. Os trajes sagrados dos Cavaleiros são mais do que armaduras feitas de supermetais. Elas possuem mistério divino, vida e vontade próprias.

- Corrente de Andrômeda! - lançada ao chão, a corrente se arrasta pelo solo vulcânico, levantando as cinzas e formando um redemoinho brilhante. - Esta é a minha Nebulosa de Andrômeda. - explica Shun.

A imagem da galáxia formada na penumbra da montanha amplia infinitamente seu alcance, com poder proveniente de uma dimensão desconhecida.

- De fato, não podemos menosprezar Cavaleiros com o traje sagrado - apesar de toda demonstração de força de Shun, Toas mantém um tom misteriosamente calmo e em nenhum momento assume qualquer posição de combate. - Melhor assim. É preciso que seja assim! Do contrário, não haveria razão para trazê-los até o Etna... Jovem e belo Andrômeda, mostre seu Cosmo para Toas, o "relâmpago célere".

- Nós realmente precisamos lutar? - como sempre, Shun resiste ao combate.

- Ou você me mata, ou eu mato você.

Forças internas estalam. Os Cosmos de Shun e Toas se chocam com violência na luta, envolvendo a corrente de Andrômeda.


Parte 6

Ao recuperar os sentidos, Yuuri de Sextante não tem idéia de onde esteja. Sente-se tonta, com uma dor aguda na cabeça, e tem uma tremenda dificuldade de respirar. É como se seus pulmões estivessem queimado.

- ... É gás? - pergunta-se, baixinho.

De fato, o interior da caverna está repleto de gases vulcânicos com um acentuado odor de enxofre. Ao tentar levar as mãos ao rosto para cobrir a boca, Yuuri percebe que seu braços estão acorrentados a uma rocha.

Normalmente ela não terai dificuldade alguma em romper essas correntes de ferro, mas eu corpo está entorpecido, talvez por efeito dos gases. Yuuri olha ao seu redor, voltando a si gradativamente. Não sabe onde está, mas percebe que é uma espécie de gruta. Apesar de não encontrar em seu campo de visão nenhuma tocha ou fonte de luz, consegue enxergar claramente dentro da caverna. "Por que não está escuro aqui?", pensa a garota.

- Porque está é a Terra Santa dos Gigas - a voz faz com que Yuuri estremeça de pavor, como se fosse uma mulher comum. Volta seu olhar na direção dela: um demônio. Não, uma máscara. Um homem vestindo uma máscara diabólica como um Ouga.

É Encélado, "o brado de combate", em sua longa armadura, que tem o brilho dourado do topázio, e ele observa, atentamente sua prisioneira.

- Quem é você? Onde estamos? - Yuuri se esforça para aparentar tranqüilidade e firmeza, mas está seriamente transtornada. Sendo uma Amazona, não se assustaria com a fachada rasteira de uma máscara: consegue reconhecer e identificar com precisão o incrível poder do inimigo.

- Da mesma forma que Atena tem o seu Santuário, nós temos esta terra, protegida pela vontade do Deus dos Gigas.

- Gigas...? - Yuuri mal consegue falar e nem sequer tem certeza de que sua pronúncia é inteligível. Até seus lábios estão entorpecidos. Vasculhando seus conhecimentos de Oficiante auxiliar, lembra-se de que os Gigas são seres malignos de morada desconhecida, exilados por Atena na longínqua Gigantomaquia. É a história de uma guerra distante, da qual praticamente não restam registros, nem mesmo no próprio Santuário.

Mais uma vez Yuuri olha ao seu redor, sem entender de onde vem a sutil luminosidade do ambiente. Seria a própria rocha brilhando como uma parede luminosa, ou estaria o ar saturado de partículas de luz? De qualquer forma, não é uma luz compreensível pela lógica humana. Certamente está em uma região sagrada, mas a vontade que a preenche é de natureza completamente diferente da de Atena.

- O que você pretende me raptando? - pergunta, tossindo.

Também não entende como o gigante à sua frente pode estar imune ao efeito dos gases. Lembra-se de que as máscaras das Amazonas têm efeito neutralizador de tóxicos, talvez a máscara de Orga tenha a mesma função. Só então Yuuri se lembra de que sua máscara foi quebrada na luta no Observatório. Seu rosto está exposto, desprotegido. Para uma Amazona, estar sem máscara é como estar nua.

- Os Cavaleiros têm uns dogmas esquisitos. - diz Encélado, demonstrando que pode ler os pensamentos de Yuuri. - As Amazonas usam máscaras para abandonar sua feminilidade - continua, erguendo com sua bengala o queixo da jovem, forçando-a a olhar para a frente, o que faz com que o espírito dela seja invadido por humilhação e constrangimento. - Você é uma presa, uma isca, um chamariz. Este será o túmulo dos Cavaleiros.

Mesmo estando enfraquecida, Yuuri não consegue conter o riso.

- Eu sou sua refém? O que o faz pensar que uma reles Amazona de Bronze como eu teria tanto valor?

- Não acho que tenha valor algum. Mas Atena não pensa assim. Dizem que seu espírito se contorce de dor cada vez que há uma chance dos seus protetores se ferirem. A prova é que ela enviou Cavaleiros aqui ao Etna para salvá-la.

- O quê? - Yuuri não entende por que o Oficiante-mor Nikol colocou outros defensores de Atena em perigo. Em contraste com sua atitude pacata no dia-a-dia, quando se trata de zelar pela proteção da deusa, Nikol é severo e totalmente insensível às necessidades individuais dos Cavaleiros e Amazonas. "Isso quer dizer duas coisas", conclui, em pensamento. "Que esta situação é muito séria", e que, mais uma vez, Atena agiu de acordo com seu enorme coração."

- Sim, com seu enorme coração a sua deusa mandou os Cavaleiros para a morte nas mãos dos Guerreiros Gigas. Hahaha! - Encélado solta uma gargalhada terrível.

- Você não pode ser um Giga, um daqueles monstros que cultuavam deuses viciados do passado... - antes que conseguisse terminar, Yuuri é atingida no rosto pela bengala do gigante, cortando o interior de sua boca.

- Como ousa chamar meu deus de viciado? - diz, puxando a Amazona pelos cabelos prateados. - Comporte-se, cadela de Atena! Estamos diante da presença divina.

Um palpitar. Yuuri consegue sentir o ritmo de um coração batendo. Seu Sétimo Sentido lhe diz que, muito além desta caverna, nos confins perdidos do vão entre Gaia e Tártaro, um Cosmo de escalas nunca antes imaginadas está em gestação. Em algum templo subterrâneo está sendo nutrido um mal de dimensões desconhecidas.

- Quando ele ressurgir sobre a Terra, não teremos motivos para ter medo de Atena! - Encélado parece satisfeito pelo fato de a Amazona perceber o poder divino.

- Um deus maligno do passado...? - são as últimas palavras de Yuuri. O golpe da bengala diabólica a atinge com um som surdo. A Amazona desmaia, com os cabelos e o quitam manchados de sangue.


Ressurreição

Parte 1

Terremotos fazem a ilha tremer de forma assustadora, como se estivessem expressando o ódio acumulado dos Gigas sob o Etna. Seiya está soterrado sob cinzas recentes que cobrem a encosta do vulcão. Foi arremessado contra a lateral da montanha pelo impacto do corpo de Ágrios, "a força brutal". O sangue que escorre de sua testa é absorvido rapidamente pelo solo esponjoso.

- Como é incrível o poder dos Gigas - pensa o Cavaleiro, percebendo uma fissura em sua armadura de Pégaso, na altura do peito. - Pelo jeito a história de que quase todos os Cavaleiros foram derrotados não é balela, não...

Seiya sabe que só alguém capaz de exterioriza o seu Cosmo, alguém que domine uma técnica de luta capaz de quebrar átomos, seria capaz de afetar seu traje sagrado, mais resistente que qualquer metal do universo.

- Olha só aonde você veio parar, Pégaso. - Ágrios se aproxima do garoto em sua Adamas azul, pisando nas cinzas, lentamente. - Se não tivesse batido na montanha, você teria cruzado o Mediterrâneo até a África.

- Mas que exagero - diz Seiya, erguendo-se. Seu rosto está cheio de fuligem.

- Ainda consegue falar asneiras depois de receber a Pressão de Penhascos? Estou impressionado.

Seiya é Ágrios se encaram sobre o declive escorregadio, a dez metros um do outro. Enquanto nenhum ataque de luta ou artes-marciais poderia ser travado a essa distância, para os Cavaleiros, que lutam a velocidade supersônicas, esse é um espaço mínimo.

- Meteoro!

- É inútil! - sorri Ágrios, enquanto os dois se cruzam no ar, envoltos em ondas de impacto. - Para mim, isso é como uma picada de pernilongo.

De fato, mesmo atingido por centenas de meteoros, o Giga não esboça qualquer reação, permanecendo praticamente imóvel o tempo todo.

- Como é que pode?! - pensa Seiya, perplexo. - Por mais que o Adamas seja resistente, não existe nada que não possa ser destruído por...

- Você não tem como me vencer - diz o gigante, interrompendo os pensamentos do Cavaleiro. - Conforme-se com a derrota, Pégaso. É o fim!

Mais uma vez, Ágrios toca o chão com uma de suas mãos, curvando-se para ganhar impulso. Para esse temível gigante, artimanhas técnicas são desnecessárias. Basta-lhe lançar sobre o oponente sua duríssima armadura e o peso sobre-humano de seu corpo.

- Pressão de Penhascos!

O chão parece explodir com o avanço de Ágrios, erguendo uma enorme coluna de cinzas. Seiya não consegue se desviar e o gigante agarra seus pés como num jogo de futebol americano, jogando o Cavaleiro no chão com todo o peso de seu corpo e uma velocidade avassaladora.

- Ah! - Seiya cospe involuntariamente um jato de sangue, formando uma espécie de neblina avermelhada no ar. Sua nuca atinge o solo com um baque surdo.

Ágrios contempla por alguns segundos a eficácia de seu golpe, soltando então lentamente o corpo imóvel de Seiya, com uma expressão satisfeita de trabalho cumprido.

- Será que quebrei todos os ossos? - pergunta-se, olhando com desprezo para Seiya, que está praticamente soterrado nas cinzas, muito mais machucado do que quando foi arremessado pelo gigante agora há pouco. O corpo do garoto absorveu toda a energia destrutiva da armadura e da impressionante massa corpórea de Ágrios.

- Poderia matá-lo se quisesse - continua, erguendo com uma só mão o corpo de Seiya, já envolto nas cinzas que se acumulam incansavelmente. - Mas aí não haveria sentido em atrair os Cavaleiros para o Etna. Sem falar que, se eu o matasse, teria que escutar os maçantes sermões de Toas e do Mestre Encélado. Então, me faz um favor? - sua voz se enche de um sarcasmo maldoso. - Fica vivo só mais um pouco. Depois que o nosso assunto acabar, eu termino de matar você, certo?

Um facho de luz se espalha pelo ar repentinamente. Ágrios é pego de surpresa pelo chute meteoro de Seiya, que até agora parecia moribundo. Os inimigos voltar a abrir distância entre si, enquanto um vento forte arrasta as cinzas no chão.

- Se liga! Fica falando coisa sem nexo aí... - provoca o Cavaleiro.

- Moleque! - Ágrios treme de raiva, ainda cambaleando um pouco por causa do golpe. - Você está pedindo isso! - seu elmo de Adamas foi arrancado, revelando um rosto de traços altivos e marcantes, que contrasta com suas maneiras grosseiras.

- Perdeu a cabeça junto com a máscara, é? - continua Seiya. - Acontece que eu também perdi a paciência com você.

- É este o Cosmo de Pégaso? - o gigante parece se dar conta pela primeira vez do enorme poder do Cavaleiro.

- Não vou morrer num lugar destes - diz Seiya. - Me levanto toda vez que cair! E no final vou derrotar você.

- Já disse para não empinar demais o nariz! - uma terceira vez Ágrios encosta a mão no chão, gritando, enquanto seus olhos transbordando de ódio encaram Seiya fixamente: - Queime, meu Cosmo... Queime! Pressão de Penhascos!

E novamente o solo parece explodir. Os dois colidem em pleno ar com um som pesado, que põe fim ao movimento. Uma quantidade tremenda de sangue tinge o chão coberto de cinzas. Ágrios tem um enorme corte na testa e geme de dor com sua voz gutural.

- Um Cavaleiro nunca recebe o mesmo golpe duas vezes - diz Seiya, interceptando com o joelho mais uma tentativa de ataque do gigante.

- Agora você enxergou o Pressão de Penhascos?

- O meu Cosmo me mostrou.

Seiya suspende pelas costas o corpo cambaleante de Ágrios. Seu Cosmo provoca uma explosão avassaladora, projetando o garoto e um salto, quase um vôo no céu, levando consigo o Giga num fluxo ardente de sangue.

- Não é possível... O meu corpo enorme? Um reles Cavaleiro...!

De posse de aura alada de Pégaso, Seiya mergulha na direção da terra, fazendo com que o inimigo caia de cabeça no chão.

- Turbilhão de Pégaso! - com isso uma estrela colossal cai dos céus. O impacto estremece a terra com força comparável à do choque de um asteroide, abrindo uma enorme cratera na montanha. A figura de Seiya emerge da nuvem de cinzas gigantescas.

O Cavaleiro cambaleia ligeiramente e dobra o joelho. "Essa foi por pouco", diz para si mesmo. Seiya está em um estado de excitação tamanho que não sabe se ri ou cai para trás de susto. Ele tem consciência de que não teria vencido a luta se não tivesse arriscado a própria vida. Ter a habilidade de dominar a essência da destruição significa que cada batalha de um Cavaleiro contra um oponente à sua altura é uma visita ao domínio da morte.

Seiya não sente mais o Cosmo de Ágrios, até pouco tempo atrás tão agressivo e brutal.

- Cadê o Shun? E o Mei...? - Ainda se movendo com dificuldade, parte em busca do Cosmo de seus companheiros.


Parte 2

A corrente estelar treme na penumbra, formando uma galáxia espiralada.

- Esta é a minha Nebulosa de Andrômeda - repete Shun, envolto pela barreia intransponível. - Agora você não tem mais como se aproximar sequer um passo de mim - diz, encarando Toas, o "relâmpago célere". A arma se movimenta com vida própria, levantando vigorosamente as cinzas do chão.

- Não me diga - a confiança do gigante permanece inabalável.

- Se pretende atravessar esta corrente, lembre-se de que correrá risco de vida - avisa Shun. No entanto, Toas ainda lança um golpe rápido como uma lança elétrica. - Proteja-me, corrente circular!

O metal gira no ar como vagalhões agitados, repelindo com sucesso o relâmpago. Toas recua depois de duas investidas bloqueadas pela corrente.

- Nesse caso, então... - o gigante se movimenta ao redor de Shun em uma velocidade várias vezes superior à do som, cercando o Cavaleiro de inúmeras imagens residuais de si mesmo. É impossível acompanhar com os olhos esse deslocamento supersônico, e Shun não consegue em momento algum identificar a verdadeira localização de Toas.

Mas a corrente de Andrômeda é imune a ilusões desse tipo. Quando o gigante tenta lançar um golpe na direção do Cavaleiro, ela localiza precisamente sua posição e o atinge numa explosão que faz com que a cinza vulcânica acumulada se erga no ar. Com o choque, a máscara de Adamas de Toas cai no chão.

- Eu disse que não poderia se aproximar de mim - Shun de Andrômeda permanece intocado no campo de batalha enevoado pelas cinzas. Sua "tropa" - a corrente - mantém-se em formação, formando uma nuvem de estrelas.

- Pois bem - Toas leva as mãos ao rosto recém revelado. - Você tem motivos para ser confiante. Sua corrente tem uma capacidade impressionante - continua, alinhando os longos cabelos negros. - Realmente não oferece nenhuma brecha, serve como olhos, ouvidos... mais do que isso, vai além dos cinco ou seis sentidos, deve perceber o inimigo através daquilo que vocês, Guerreiros Sagrados, chamam de Cosmo.

- Ilusões não funcionam contra ela - completa Shun. - À medida que o meu Cosmo aumenta, a corrente se torna mais e mais capaz de reagir a qualquer golpe, por mais rápido que seja.

Entendo - a voz de Toas mantém uma calma misteriosa. - A Nebulosa de Andrômeda é um meio integrado de defesa e ataque.

- Vamos acabar com essa batalha sem sentido - diz Shun, como sempre ouvindo seu instinto pacifista. - Não quero machucar ninguém, mesmo que seja meu inimigo.

O gigante mal acredita no que está ouvindo:

- Você não pode estar falando sério. Se está tirando sarro de mim, tem uma personalidade bem maldosa por trás desse rosto de donzela.

Mas Shun reforça sua posição:

- Brigar e matar sem motivo nenhum... Eu não consigo fazer isso! - suas palavras são quase uma declaração de fraqueza, algo impensável para um Cavaleiro que tem a guerra como ofício.

- Sem motivo? Humm - Toas pensa por um instante. - Ou seja, caso tenha motivos, você mataria o inimigo. Então não consegue lutar sem o estímulo de alguém? Precisa de um empurrãozinho, é isso? Sua auto-afirmação tem que ser embasada por palavras alheias?

-... Bem...

- Você é omisso e medíocre. Tenho nojo disso - seu tom de voz se torna repentinamente duro e seco. - Eu já disse: Cavaleiros e Gigas não precisam de questões de honra ou grandes missões para se enfrentarem até a morte. Não é preciso dizer nada, a luta é travada em nome da justiça.

- Então devemos lutar por lutar, sem razão alguma? Como os demônios ou como Rakshasa?

- Você procura desculpas demais para os seus atos, Andrômeda. Não estou interessado nas suas lamúrias, seu bebezão. Sua ladainha cheia de compaixão machuca o meu espírito.

Shun sente que o espírito de Toas se fortalece. Como uma espada japonesa que ganha brilho e leveza nas mãos do artesão, o Cosmo do gigante se torna cada vez mais afiado e límpido. O artesão que fabrica a espada não tem medo de produzir instrumentos de morte, nem tampouco nutre intenções homicidas enquanto aprimora a Katana. As guerras, por sua vez, não passam de embates entre armas e escudos - desapaixonadas, completamente desprovidas de sentimentos.

- Isto é fruto da humilhação a que me expôs - diz Toas, sobre o próprio Cosmo crescente, inesperadamente investindo contra Shun.

Uma ferida, então duas. No início o sangue brota apenas dos braços do Cavaleiro, mas a hemorragia vai ficando séria à medida que novos cortes aparecem por todo o seu corpo.

- C-como é possível? Por que a barreia intransponível da corrente não reage?!

- Não fique tão surpreso, garoto - Toas aponta o dedo na direção de Shun, fazendo surgir um brilho agudo e mais um sangramento.

O Cavaleiro está sendo atacado por ondas de impacto, finas como agulhas, lançadas pela mão de Toas como projéteis. O gigante é sua própria arma poderosíssima, e suas investidas atravessam o corpo de Shun sem que ele precise tocá-lo.

- Você disse que a corrente de Andrômeda o defende de ataques de inimigos conforme o seu Cosmo se eleva... - explica o monstro, com satisfação. - Basta, então, valer-me de um Cosmo superior ao seu, lançando um ataque a uma velocidade superior ao instinto de defesa da corrente.

Shun percebe que o sangue não estanca, jorrando continuamente das feridas. Mesmo o menor corte, minúsculo como o buraco de uma agulha, sangra de uma forma assustadora.

- É o "Estigma" - continua o Giga, acompanhando os pensamentos do Cavaleiro. - Não é uma ferida comum. Um corte provocado por mim jamais se fecha.

- Mas como...?!

- Não é difícil para alguém que domina completamente os fluxos de sangue e energia vital do ser humano. Essa técnica foi desenvolvida originalmente para que possamos oferecer a nosso deus cada gota de sangue dos sacrifícios feitos em seu nome.

Um dos soldados rasos assassinados no Santuário na noite anterior havia sido morto por esse ataque, fatal mesmo para os Cavaleiros, que são de carne e osso e morre ao perderem um terço do sangue no corpo.

- Rapaz, em poucos minutos você estará morto em meio a dores "suaves e plácidas". - Uma pausa, e o Giga fala, então, para si mesmo - Nossa, eu não gosto mesmo dessas palavras.

Shun cai de joelhos, perdendo as esperanças. Toas se aproxima dele e diz, numa voz aparentemente carinhosa:

- Vamos acabar com esta batalha sem sentido. - O gigante é puro deboche. Seu próximo passo é interrompido por uma tênue reação da corrente.

- Você é u mau perdedor. Sua corrente perdeu toda a força.

- Não gosto de lutar. Na verdade, detesto - Shun ergue o rosto, encarnando Toas enquanto suas mãos agarram as cinzas no chão. - E, como você disse, eu vivo me remoendo, vivo em dúvida sobre o que eu faço.

O Giga percebe o Cosmo de Andrômeda, crescendo teimosamente mesmo estando o garoto quase morto, com pouco sangue nas veias.

- Mas eu aprendi a lutar - Shun continua, tentando manter a firmeza na voz apesar da fraqueza que domina seu corpo. - Tenho que lutar, ignorando o sofrimento que isso me causa. Eu luto. Não sou mais um bebê chorão - o Cavaleiro usa todas suas energias para assumir uma posição de luta, colocando a corrente à sua frente.

- Então, mesmo condenado à morte pelo Estigma, você não admite a derrota. Pelo menos não enquanto a corrente existir.

- Vão, correntes angulares!

A arma avança sobre o oponente deixando um rastro em ziguezague, revestida de impulsos elétricos. Toas reage gritando:

- Ondas relâmpagos!

Faíscas se protejam no ar. O gigante segura a corrente com as duas mãos, ignorando completamente a eletricidade emanada por ela.

- N-não acredito! Você imobilizou a corrente? - Shun não consegue acreditar no que vê.

- Então este é o poder de ataque da corrente... capaz de atingir o inimigo rompendo espaços? - novamente Toas se dirige ao Cavaleiro de Andrômeda com uma serenidade inabalável. - Mas, mesmo que ela seja capaz de alcançar inimigos a anos-luz de distância, jamais atingiria o "relâmpago célere" a esta velocidade. Com este ataque, meu rapaz, você abreviou ainda mais o pouco tempo que lhe restava.

Toas puxa a corrente, fazendo com que Shun cambaleie, apesar de a pressão aplicada ser mínima. A pressão sanguínea, do garoto cai progressivamente, fazendo com que o fluxo da hemorragia causada pelos estigmas comece a diminuir aos poucos. As extremidades de seus dedos estão esbranquiçadas e formigando, sem forças.

- Eu gostaria mesmo de saber... - o Giga parece se divertir com o sofrimento de Shun. - Afinal você é forte ou é fraco, Andrômeda? Em alguns momentos demonstra a fragilidade de uma donzela, em outros, a bravura digna de um Cavaleiro. Seu espírito é instável demais, um emaranhado desajeitado e, francamente, incompreensível para mim. - Faz uma pausa como se esperasse uma resposta. - Nem tem mais forças para falar... vou matá-lo então, esmagando sua corrente, destruindo assim sua última esperança.

Toas cruza os braços, assumindo pela primeira vez uma posição de combate.

- Receba então o golpe mais poderoso de Toas...

Shun ainda tem forças para gritar:

- Proteja-me, corrente circular!

- Golpe Vingador! - um facho de luz rasga a nuvem de estrelas. O impacto do punho de Toas, cem vezes mais poderoso que o ataque de seus dedos, destroça a Nebulosa. Para desespero de Shun, a corrente de Andrômeda está caída no chão, sem reação.

- Agora você é um passarinho sem as asas - zomba o gigante, posicionando-se então para um último golpe, certamente fatal, já que Shun não tem mais a corrente para defendê-lo.

Segundos antes de Toas lançar o ataque final, o gigante percebe algo estranho em seus pés. Sem que ele tenha percebido, a superfície enegrecida da montanha adquiriu uma tênue cobertura branca. Uma sensação gelada.

- O que é isso, neve em pleno verão siciliano? - pergunta-se, estupefato.

A geada vai cobrindo a montanha. Ar frio sobe do solo. Cristais de gelo cada vez maiores e mais numerosos se acumulam em toda parte.

- Isto não é ilusão - uma voz se antecipa ao surgimento da figura imponente de um jovem loiro vestindo uma armadura branca. Sua presença emana um brilho gélido sobre a montanha de fogo, agora em plena tempestade de neve.

- Quem é você?

- Hyoga! - é Shun quem responde a pergunta do gigante.

- Você está bem, Shun? - pergunta, sem fazer menção de olhar para o companheiro caído, enquanto encara Toas fixamente. O Giga percebe pelo traje sagrado do garoto que se trata de outro Cavaleiro de Atena.

Apesar do nome japonês, Hyoga tem olhos azuis, por ser filho de uma russa, Natássia, e de um japonês, Mitsumasa Kido. É mais um dos filhos não reconhecidos pelo velho, um dos cem meio-irmãos enviados aos mais diversos cantos do mundo para se tornar Cavaleiros. Um dos dez sobreviventes daquele treinamento mortal.

- Sou Hyoga da Constelação do Cisne.

Seu traje sagrado é uma armadura de gelo, originária das eternas geleiras árticas. Tem asas esculpidas em baixo relevo na região peitoral, e uma máscara com adornos em forma de penas. O conjunto sinuoso transmite uma impressão de leveza, refletindo o ar nobre do Cavaleiro. Hyoga parece saído de um velho romance europeu. Já não é mais uma criança, mas ainda não é um adolescente. Possui um brilho peculiar, raramente encontrado em jovens de sua idade, que lhe confere um ar de nobreza. Seu olhar de um azul límpido é o grande destaque de seu rosto, que parece recusar a intimidade alheia, ao mesmo tempo em que expressa solidão e saudade.

- Então a cavalaria chegou atrasada... Pelo jeito você domina a Energia do Frio, Cisne. Interessante.

- Tenho mesmo que conversar com você? - Hyoga não tem interesse em dar qualquer explicação ao gigante.

- Que garoto antipático... Melhor assim! - Toas resolve partir diretamente para o ataque. - Morra juntamente com Andrômeda: Golpe Vingador!

O mais poderoso golpe de Toas parece avançar sobre Hyoga rompendo a cortina de neve, mas passa longe do Cavaleiro e corta apenas o ar.

- Cristais de gelo...? - o "relâmpago célere" titubeia.

- É o meu Kalitso, o círculo de gelo de Cisne. Não notou que suas pernas estão congeladas?

O gigante não entende como isso pode ter acontecido tão rapidamente. Os círculos de cristais de gelo aumentam em quantidade gradativamente, esfriando cada vez mais as pernas de Toas sob o Adamas. Cristais de gelo dos mais variados tamanhos pairam como ilusões no campo nevado, em pleno verão da Sicília.

- Adeus, Giga.

O que é a energia... o "ki" do frio? A temperatura é uma unidade de medida da agitação molecular. Quanto mais intensa a agitação das moléculas, em uma substância, maior sua temperatura, e quanto menos intensa, menor a temperatura. A relação entre calor e frio é de dinâmica e estática. Se a técnica de luta que destrói átomos é dinâmica, acontecendo através do calor, aquela que interrompe seu movimento é a técnica de imobilização, que age pelo frio.

- Pó de Diamante!

Hyoga de Cisne é um dos poucos Cavaleiros que dominam a técnica do gelo. Seu golpe poderoso faz com que o Cosmo de Toas, o "relâmpago célere", permaneça pregado ao campo de neve e cinzas vulcânicas, dominado por um sono perpétuo.

O cavaleiro se volta para Shun.

- Não se mexa - diz, lançando um golpe na direção do Cavaleiro de Andrômeda. Seu dedo indicador toca a armadura de Shun na altura do coração, fazendo com que as hemorragias dos estigmas estanquem imediatamente.

- Toquei no ponto vital do Shin'outen - explica Hyoga. - Ele estanca hemorragias.

- Como você veio parar aqui? Não tinha voltado para a Sibéria Oriental?

- Foi o Kiki. Atena o enviou para me chamar. Ela quis que eu os ajudasse.

- Atena... A senhorita Saori fez isso por nós.

- O Kiki está descansando no pé do vulcão, exausto depois de tantos teletransportes.

Sem dúvida, ir até a Sibéria e de lá para a Sicília num tempo tão curto deve ter esgotado o garoto.

- Espero que não tenhamos feito o Kiki exceder seus limites - mesmo estando ele próprio enfraquecido, Shun mantém sua generosidade e preocupação com os outros.

- Onde estão o Seiya e o Mei? - pergunta o Cavaleiro de Cisne, já sabendo do reaparecimento de Mei e do apavorante retorno dos Gigas, informado por alto da situação por Kiki.

- Nós nos separamos enquanto lutávamos contra os Gigas... - Shun se levanta cambaleante, segurando a corrente para avaliar seu estado. Enquanto a própria armadura de Andrômeda não for destruída, a corrente se mantém através de energias transdimensionais, recompondo-se completamente em uma batalha.

- Estou sentindo o Cosmo de Seiya, mas está muito fraco.

- Vamos nos reunir de uma vez. Estou preocupado com o Mei. É impossível que alguém sem armadura consiga derrotar um desses Gigas.

- É verdade... - concorda Shun, levando as mãos à testa ao ser dominado por uma forte tontura.

- Você perdeu muito sangue. Não deve se movimentar muito nesse estado. É melhor que fique descansando.

- Não, está tudo bem comigo.

- Está certo - Hyoga esboça um sorriso. - Apesar do fato de você dizer que está tudo bem não significar muita coisa...

Shun abre um leve sorriso e os dois Cavaleiros retomam a subida do Etna, na direção do Cosmo de Seiya.


Parte 3

- Estou sentindo um pouco de Cosmo lá embaixo - Seiya olha para o interior de uma antiga cratera, atualmente inativa, mas que por séculos, talvez milênios, cuspiu fogo e fumaça. O Cavaleiro de Pégaso não consegue afirmar se a energia que sente é da senhorita Yuuri ou dos Gigas.

- Opa! - Seiya cambaleia. Está suando muito, um suor frio e desagradável. - Não entendo. Meu corpo parece mais pesado.

O Ar nessa altitude é muito rarefeito, mas não o suficiente para afetar um Cavaleiro.

- Droga! Estou sem força - o garoto sente-se como se seu corpo estivesse cheio de buracos por onde seu Cosmo vaza a cada passo dado. Seiya não consegue encontrar explicação para seu estado. Embora a luta contra Ágrios tenha sido dura, ele não acredita que tenha causado conseqüências tão graves.

Um passo em falso e a superfície da montanha parece desmoronar. Seiya escorrega e quase cai dentro da cratera, mas é salvo por uma inesperada mão amiga.

-... Mei!

O jovem ergue o corpo de Seiya pelo braço.

- Você está bem? - pergunta o Cavaleiro, verdadeiramente preocupado.

- Eu é que pergunto! Olha só o seu estado - diz Mei, completando com uma risada.

- Você está rindo do quê, cara? - mas Seiya perdeu a vontade de se zangar com o amigo, limitando-se a ficar aborrecido por alguns segundos. - Cadê aquele que usa as garras, o tal de Pallas? - pergunta, retomando o diálogo.

- Fugi dele. Pensa bem, você que é Cavaleiro teve a maior dificuldade para bater nesse cara. Acha que um soldado raso como eu teria alguma chance? - Mei conseguiu escapar do Giga por conhecer cada centímetro da região. Além disso, como espião do Santuário, aprendeu a apagar os rastros de seu Cosmo, despistando seu perseguidor.

Neste ponto Shun e Hyoga aparece não muito longe, subindo a montanha na direção de Seiya e Mei. Os quatro finalmente se reúnem, à beira da antiga cratera.

- Não sabia que você estava aqui, Hyoga... - a expressão de Seiya é de verdadeira surpresa.

- Fui enviado por Atena para ajudá-los.

- Esse traje de Cisne cai bem em você.

- Mei - Hyoga olha apenas de relance para o irmão que reencontra depois de tantos anos.

- Veio correndo da Sibéria? Tomara que não tenha se cansado - brinca Mei, sem obter resposta; - Haha! Você continua antipático, cara. Ninguém aqui mudou nadinha.

O jovem dá de ombros fazendo uma careta que faz com que Seiya e Shun soltem uma risada rápida.

- Vocês dois estavam aqui porque sentiram o Cosmo vindo cratera? - pergunta Shun.

- Então vocês também sentiram.

Hyoga se vira, calado, na direção do buraco, apontando uma fissura entre duas enorme rochas, que parecem lábios entreabertos. O quarteto se dirige à abertura na pedra, descendo cuidadosamente pela frágil e quebradiça superfície do interior da cratera.

Shun espia pela fenda.

- É bem fundo. Parece ir até o centro da Terra.

- O Cosmo vem do fundo desta caverna.

Diante das palavras de Seiya, os amigos descem pela abertura na rocha, usando a corrente de Andrômeda como uma corda. Ao alcançarem a base da caverna, percebem que não estão cercados de escuridão, como seria de se esperar, uma vez que haviam deixado a luz do dia completamente para trás.

- O que é isso? As paredes da caverna estão brilhando?

Seiya e Shun andam na frente, seguidos por Hyoga e, no final da fila, Mei. A gruta é larga o suficiente para abrirem os braços, e eles conseguem enxergar alguns metros à frente graças a essa luz fantástica e inexplicável. Tons que vão do dourado claro ao vermelho profundo se projetam nas paredes de pedra, variando de intensidade ciclicamente.

- Está pulsando...

- Credo, Shun! - protesta Seiya com uma expressão de pavor, como se a observação do amigo fosse atrair algum fantasma.

- A impressão que eu tenho é de que estamos no interior de um ser vivo - continua Shun. - A corrente está tensa o tempo todo.

Uma sensação cada vez mais desagradável invade os jovens à medida que avançam na direção do fundo da caverna, de onde vem o Cosmo.

- Estou com frio na barriga, pôxa - reclama Seiya, ao mesmo tempo em que a temperatura se torna mais e mais alta.

- Que calor. Acho que a gente já andou uns bons quilômetros.

A esta altura estão todos suando muito.

- E o cheiro de gás está ficando mais forte.

Será esta fenda um caminho para o útero da Terra? Os Cavaleiros estão sendo atraídos à fronteira do inferno? Apesar dos pensamentos assustadores, o quarteto prossegue, inabalado, seu caminho rumo ao fundo.


Parte 4

O altar emana um mal de origem desconhecida. Um som grave, talvez o vento, domina o ambiente.

- Ágrios. E Toas também. - sussurra Encélado, o "brado de combate", no templo subterrâneo, enquanto olha com desdém para a jovem acorrentada. - Os santos de Atena... Depois da antiga Gigantomaquia, será eles vão se colocar no caminho dos Gigas outra vez...?

Yuuri está desacordada, com o rosto caído para a frente e os cabelos prateados manchados de sangue.

- Não há nada a temer em relação aos Cavaleiros - balbucia o Giga, como se quisesse convencer a si mesmo, enquanto cutuca insistentemente com sua bengala a refém, que permanece imóvel. - Porém, Atena não deve ser menosprezada. Enquanto a deusa guerreira protetora da Terra existir, os desagradáveis Cavaleiros continuarão a proliferar e nos importunar como moscas no verão. Vamos ressuscitá-lo, então! Nosso querido Irmão Infante, detentor de uma vontade superior à de Atena, superior a todos os deuses do Olimpo... vamos resgatá-lo das profundezas perdidas do Além.

- Senhorita Yuuri! - Seiya não consegue conter o grito ao encontrar a Amazona amarrada na pedra.

- Finalmente, cansei de esperá-los, cães de Atena - diz Encélado, com sua voz poderosa, enquanto surgem, atrás de Seiya, Shun, Hyoga e Mei.

- Que lugar é este...? - perguntam-se os Cavaleiros, abismados.

O túnel por onde vieram se abre repentinamente em uma imensa caverna, grande o bastante para abrigar um anfiteatro. Um estrondo pesado. O vulcão parece tremer com freqüência cada vez maior. Lascas se desprendem e caem do teto. O vão parece poder ruir a qualquer momento. O calor é intenso e abafado, calor de magma. Um som constante e arrepiante paira no ar. Será o vento...? Parece um grito agudo provocado pelo vendaval.

- Um espaço livre tão grande sob o Monte Etna! E aquele altar... isto parece ser um templo. - a corrente de Andrômeda se enrijece. No centro da grande abertura há um enorme altar de pedra. A superfície enrugada mantém a mesma luz tremulante do corredor por onde chegaram os garotos, dominados por uma impressão perturbadora de estarem no interior de uma víscera gigantesca.

- A senhorita Yuuri... está bem? - perguntou-se Seiya, com grande preocupação. Acorrentada pelos dois braços à rocha, cabeça curvada para a frente, é impossível dizer se está viva ou morta.

-Se ela ficou esse tempo todo aqui, em meio a toda essa concentração de gases, o risco é grande - o rosto de Shun demonstra alguma ansiedade.

- E ele? - pergunta Hyoga, apontando para o Giga mascarado que segura sua bengala maligna diante do altar.

- É Encélado, o "brado de combate". Disse que era o sumo sacerdote.

Hyoga fixa seu olhar no inimigo. Em um movimento inesperado, o Cavaleiro de Cisne dá uma arrancada na direção do gigante. Seu corpo se cobre de cristais de neve.

- Pó de Diamante! - o ataque de gelo pega Encélado de surpresa, mas ainda assim o poderoso Giga consegue repelir a energia gelada, lançando-a de volta na direção de Hyoga. A onda de choque o levanta no ar e afeta Mei e os outros Cavaleiros, que estavam a dezenas de metros a distância, atirando-os contra as paredes da caverna.

O ataque de Encélado é o mesmo que haviam visto em Taormina. O impacto causado pelo golpe, parecido com uma explosão, é ainda maior dentro deste ambiente fechado.

- Hahaha! - o Giga solta sua risada macabra. - Podem vir tantos Cavaleiros de Bronze quantos quiserem que nem sequer conseguirão chegar perto deste sumo sacerdote dos Gigas!

- Tem algo estranho.

- Que foi? - Seiya se vira para Hyoga.

- Sinto o corpo pesado...

- Você também?

- Acho que todos sentimos isso - diz Shun, em um tom de grande preocupação.

- Eu achava que eram resquícios da luta com o Ágrios, mas...

- Poderia até ser, se apenas eu e você, que travamos intensas batalhas com os Gigas, estivéssemos sentindo isso. Mas afetar até o Hyoga, que quase não foi atacado, não faz o menor sentido.

- Isso começou no momento em que cheguei ao Etna - revela Hyoga. - E piorou depois que entramos nesta caverna. A energia do Pó de Diamante não teve nem metade da sua potência, e ainda não consegui me recuperar.

- Eu achava que estava me sentindo assim por causa dos sangramentos ou do gás... mas não é isso. Parece que a nossa própria força está escapando do corpo.

- Não são danos das lutas - diz Mei, balançando a cabeça. - Não é o cansaço, nem o veneno no ar. É o Cosmo que está sendo sugado. A força dos Cavaleiros, a origem de todas as formas de vida... Nem adianta lutarmos. Não temos a menor chance.

- Sugado? Você fala como se algo estivesse absorvendo o nosso Cosmo...

- Exatamente - a voz de Encélado confirma a teoria de Mei. - Desde o momento em que puseram os pés no Etna, seu Cosmo vem sendo sugado, aos poucos. Esta terra está dentro do campo protetor de Flegra, as chamas terrenas que protegem a nós, os Gigas, da mesma forma que o Santuário é protegido pelas redomas de Atena - a criatura tem plena consciência do impacto de suas revelações nos Cavaleiros. - Neste lugar, aqueles que não trajam o Adamas jamais se recuperam dos danos sofridos. Cada vez que queimam seu Cosmo, a energia é sugada pelo campo de força. Isso significa que, enquanto existir a redoma protetora de Flegra, nunca serei derrotado, nem mesmo pelos 88 Cavaleiros reunidos!

- Não é possível... Quer dizer que nosso Cosmo estava sendo sugado a cada ataque que lançamos? - os Cavaleiros de Atena estão perplexos.

- A luz que ilumina estas cavernas também deve vir dessas tais chamas terrenas - conclui Seiya.

- Nós, recém-despertos, não estávamos em número suficiente para atacarmos à força o Santuário protegido por Atena... - continua Encélado. - Mas bastou raptar uma garotinha para conseguirmos roubar toda a sua energia... Com a garota são quatro apenas, e da hierarquia mais baixa... Só Bronze não será suficiente para saciar a fome do deus, mas... Por ora, morram! - grita o Giga, erguendo a bengala maligna e se concentrando para liberar seu poder de destruição.

- Aí vem outra onda de impacto! - a tensão da corrente de Andrômeda aumenta ainda mais.

- Temos que atacar antes que a coisa fique ainda pior - diz Seiya. - É a nossa única chance de vitória. Vamos atacar usando velocidade.

A aura das constelações protetoras - Pégaso, Andrômeda e Cisne - resplandece nos três jovens. Estrelas pairam no ar e queimam dentro da grande caverna, nas profundezas da Terra.

- Queime, Cosmo! - Seiya se posiciona para o combate, liberando uma espécie de Big Bang. Quando o Cosmo é elevado ao máximo, no despertar do Sétimo Sentido, à energia primordial do universo.

- Segura essa, Encélado!

O Pégaso galopa. A corrente de Andrômeda se transforma em eletricidade luminosa e o Cisne alça vôo.

- É inútil.

Shun e Hyoga assistem, perplexos, ao ataque a Seiya. A amadura de Pégaso se rompe e o sangue começa a jorrar das costas do Cavaleiro. Um punho enfia com força a faca que rompe a tênue camada de gordura.

- Mei...? - Seiya desmorona no chão ao pronunciar o nome de seu meio-irmão.

- É inútil - repete a voz das trevas.

- O quê você fez?! O que você fez, Mei?! - grita Shun, desesperado.

Mesmo Hyoga, que nunca perde a calma, está boquiaberto com a cena. Mei estava chacinando Seiya, com a mão afundada no corpo de Seiya até a raiz dos dedos. O jovem retira a faca em um movimento brusco, fazendo com que o sangue passe a jorrar com uma intensidade ainda maior.

- Esse Cosmo... - Shun treme de pavor.

Uma pressão formidável. Os Cavaleiros percebem que aquele não pode ser, em hipótese alguma, um soldado raso que não conseguiu chegar a Cavaleiro.

Mei passa os dedos pelo rosto. Maquiagem de sangue.

- Poucas vezes senti um Cosmo tão gigantesco... Essa vontade é praticamente a de...!

Shun e Hyoga se afastam de Mei em um estalo, abrindo distância, incapazes de ficar tão perto daquele energia inacreditável.

- Esse... Isso não é o Mei!

Hyoga se posiciona para o combate, tomando o meio-irmão como inimigo.

- Precisávamos de poder para a ressurreição do grande deus! - urra Encélado, o "brado de combate". - Como sua força é colossal, precisávamos de uma energia equivalente àquela presente na concepção do Universo. Só com o sacrifício de um Cavaleiro conseguimos romper o lacre forjado por Atena! Só com o sangue de um Cavaleiro! A pulsação da vida presente no sangue quente! O Cosmo! - Encélado ergue as mãos em reverência, com o rosto encharcado de lágrimas emocionadas sob a máscara demoníaca.

- Ressurreição? De quem ele tanto fala?

- Ele está falando de deus, belo e jovem Andrômeda - Toas, o "relâmpago célere", surge do nada no templo subterrâneo. E ele não chega sozinho. Ágrios, a "força brutal", também está agora diante do altar e o rosto magérrimo de Pallas, o "parvo", surge na entrada da grande caverna. Os quatro Gigas cercam os Cavaleiros.

- Os Cavaleiros de Atena ousaram até mesmo esquecer o nome do deus!

- Quirri! Vamos fazê-los se lembrar.

- Não é possível! - exclama Hyoga. - Nós derrotamos esses dois!

- Haha! Acharam que a gente morreria só por causa daquilo? Ora, vão se danar! - Ágrios franze as sobrancelhas.

- Então foram ilusões? Como fomos levados a acreditar numa falsa vitória? - Shun está estupefato.

- Acharam que tinham vencido sem ao menos verificar os cadáveres? Os Cavaleiros precisam aprender a ser mais incisivos... - a voz de Toas transborda sarcasmo. - Todo o Etna está sob a redoma de Flegra. Nós, vestidos com o Adamas, somos protegidos, enquanto os seus ataques estavam todos, sem exceção, enfraquecidos em potência.

- A proteção daquele que reverenciamos! - o sumo sacerdote dos Gigas se vira e começa a orar no altar. - Vinde a nós! - seu grito de combate faz tremer todo o templo subterrâneo. - Vos invocamos, último filho dos Gigas, rebento do enlace de Gaia com Tártaro! Senhor dos ventos impetuosos, pai de todos os encantos malignos. Irmão querido. Cem cabeças de serpente, línguas negras, olhos flamejantes... declarai vosso verdadeiro nome! - o sacerdote está em uma espécie de transe extasiado, agitando constantemente sua terrível bengala. Ele repete os epítetos, faz dedicatórias, pronuncia orações: está conduzindo uma cerimônia.

- Ooooooaaah! - Mei começa a gemer repentinamente. Sob o olhar de espanto dos Cavaleiros, o jovem arranca sua própria pele, numa atitude sinistra, desprovida de toda e qualquer razão, que congela Shun e Hyoga da ponta dos pés até a raiz dos cabelos. Um demônio comedor de gente emerge de dentro de Mei, gemendo e grunhindo. O Orga lambe mais algumas gotas de sangue de Seiya, que ainda pingam dos dedos e, roubando a garganta e a língua de Mei, declara o seu verdadeiro nome.

- Meu nome é Tífon.


Parte 5

A voz das trevas ressoa nas profundezas de um abismo perdido. Olhos flamejantes, línguas negras, cem cabeças de serpente, pai de todos os encantos malignos, senhor de todos os ventos coléricos: "Meu nome é Tífon".

Os Cavaleiros estão diante do último Giga, nascido do enlace da Terra com o Mundo dos Mortos.

- O gigante inigualável que oculta estrelas e as mais espessas nuvens - o sumo sacerdote prossegue com sua ladainha. - Dominador da terra, aquele que matará os Cavaleiros Sagrados, aquele que destruirá Atena... nosso amado e derradeiro irmão.

- Quem sou eu? - pergunta o demônio em um tom ritualístico.

- A vontade que guia os Gigas - respondem os outros em uníssono.

- Quem sou eu?

- Vós sois Deus.

Os quatro Gigas estão prostrados diante de Mei, ou daquele que deveria ser Mei. A luz intensa se projeta de forma caótica pelo grande espaço vazio. Somente com enorme dificuldade, Shun e Hyoga conseguem assistir à cena.

- Meus olhos estão doendo... Estou com medo...

- Não se deixe levar, Shun! Não tenha medo desse deus viciado e maligno. Você não pode vê-lo com olhos de temor! - Hyoga fala com desespero e firmeza. - Lembre-se que somos protegidos por Atena e pelas estrelas. Mantenha o seu Cosmo. Se você se render ao medo, se deixar que ele domine você, sua personalidade será devorada.

O "temor" é a essência dos deuses. Em seus primórdios, os deuses nasceram do temor. Eram pessoas tementes que o cultivavam, oferecendo-lhes sacrifícios em uma tentativa de atenuar o medo que sentiam.

Uma vontade divina em seu formato mais arcaico, nua em sua origem, está encarnada no corpo de Mei:

- Sou Tífon.

- Sim - responde Encélado.

- Mas que carne frágil e feia! O que foi feito do meu resplandecente corpo carnal? - a indignação do deus lança um baque invisível, instalando ondas de terror. Por pouco Shun e Hyoga não têm seu coração esmagado. Neste momento, até os próprios Gigas, extremamente tensos, estão claramente apavorados.

- I-irmão amado - diz Encélado, tremendo. - Com todo o respeito, lembrai-vos da antiga Gigantomaquia. Vosso resplandecente corpo carnal foi dilacerado em cinco partes por Atena, e vossa vontade exilada sob os rochedos rígidos desta ilha - em momento algum o sumo sacerdote pronuncia o nome do deus.

Assim eram adorados os deuses nos primórdios do mundo. Da mesma forma que encarar diretamente a verdadeira forma de deus esmagaria seus olhos, o ato de pronunciar seu nome arrancaria sua língua e o faria perder a fala.

- Foi isso, entendi - Tífon aplaca sua ira por um momento. - Mas onde está o meu resplandecente corpo carnal? - repete. - Irmãos queridos. Onde ocultaram o resplandecente corpo carnal deste seu irmão mais novo?

Glan! Uma nova onda de choque, poderosa e ponto de ser audível, parte em pedaççõs a bengala de Encélado. Incoerência pura. As palavras de Tífon não têm lógica alguma. Ao contrário, o deus apenas e tão somente despeja sua raiva, em puro egoísmo, feito um tufão sem rumo. Mesmo assim, os Gigas, antes tão opressores, tão senhores de si, procuram não questionar Tífon. Para eles, deus é puro temor. Algo a ser aplacado.

Encélado responde, com as mãos trêmulas segurando a ponta da bengala destroçada:

- Respeitosamente... Primeiro foi a vossa vontade que nos salvou das profundezas do Tártaro, valendo-vos desse humano como receptáculo transitório e marionete. Creio, sem dúvida, que essa carne frágil vos seja insatisfatória.

- Sim. Entendi. - Mei, ou Tífon, observa atentamente seu corpo nu. - Sumo sacerdote? - o deus também não chama os Gigas por seus nomes. Aquele que tiver o nome pronunciado por ele sangrará pelos ouvidos e enlouquecerá.

- Sim.

- O que é este corpo frágil e feio? - Tífon continua o discurso incoerente. - Sinto falta de poder. Falta, falta, falta. Falta... falta... falta, falta - repete, em um tom insistente e enlouquecido. - Ordenei que me oferecessem em sacrifício o sangue de Cavaleiros para romper os selos de Atena e sair das profundezas do abismo fantasma.

- De fato, Senhor. E aqui está - Encélado aponta na direção dos Cavaleiros.

- Sim. Entendi. - Olhos malignos com veias em redemoinho encaram os jovens - São estes os sacrifícios a mim dedicados.

O olhar de Tífon quase mata Shun. Colocada em situação de extrema pelo medo, a corrente de Andrômeda solta um som agudo como o grito da corda de um instrumento musical esticada até o limite, pronta para romper.

- Já tinha percebido que era uma armadilha... mas um sacrifício...? - as palavras de Shun são abafadas pelo barulho da corrente.

Hyoga comprime os lábios, prevendo o que está para acontecer.

- Sangue de Cavaleiros! Por isso seqüestraram a Yuuri! Por isso nos atraíram até o Etna. Mas... por que o Mei?

O Cosmo percorre o corpo dos Cavaleiros através da corrente sangüínea. Portanto, o sangue de um Cavaleiro está repleto dessa energia, a fonte de todas as formas de vida. Prova disso é a conhecida história de que é necessário um volume imenso de sangue de Cavaleiros para trazer de volta à vida uma armadura destroçada em combate. Essa também é uma cerimônia, um ritual para inserir no traje uma nova energia vital, o Cosmo, através do sangue do Cavaleiro.

- Que seja entregue a oferenda - olhos malignos em chamas encaram os Cavaleiros. Tífon outrora Mei, vai acossando Shun e Hyoga aos poucos.

- Essa pressão equivalente à de Atena. É o Cosmo de um deus?! - pergunta Shun.

- Sim - responde Hyoga - Mas de uma natureza totalmente diferente.

- Hyoga... - a voz de Shun está trêmula.

- Eu sei. Acho que vamos morrer aqui - Hyoga balbucia num tom de voz seco, cerrando o punho, ainda assim disposto a lutar.

- Que seja entregue a oferenda - Tífon repete, como se tivesse esquecido o que acabou de dizer, violando com facilidade a corrente de Andrômeda e as paredes de energia gelada, todas as defesas dos dois Cavaleiros. Em um movimento brusco, o deus ergue as duas mãos, buscando as gargantas dos jovens.

- Parem! - uma jovem segurando o bastão dourado à imagem de Nike, a deusa da vitória, manifesta-se rompendo as paredes do grande vão subterrâneo das profundezas do Etna. Tífon olha de canto de olho para a menina que desce do ar.

- Ó último dos Gigas, senhor de todos os ventos malignos. Não permitirei que machuque mais os meus Cavaleiros.

- Você, mulher cinza - Tífon está frente a frente com a deusa que tanto odeia.

- Tífon.

- Atena.

No instante em que os dois deuses pronunciam os nomes um do outro, explodem os espíritos presentes no verbo. Tífon e Atena se tornam halos e começaram a cintilar. Uma energia equivalente a um choque entre galáxias cobre todos os cantos numa massa ofuscante. As vontades dos deuses colidem no interior da gruta. Os seis sentidos, quando expostos aos deuses, são negados a inutilizados. Só resta o Cosmo, a única coisa que conserva a identidade individual de cada um dos seres presentes.

- Senhorita Saori...!

- Shun, Hyoga, vocês estão bem?

Saori Kido, a deusa Atena, mantém-se serena em meio ao halo. Depois se ajoelha, silenciosamente, deitando sua mão reconfortante sobre Seiya. A hemorragia é estancada milagrosamente.

- Que bom - Atena suspira aliviada ao se certificar de que o Cavaleiro está vivo.

- Absurdo! - a voz de Encélado, o "brado de combate", sai tremida e tênue. - Como Atena se teletransportou do Santuário para cá? - Isso nunca poderia acontecer! O Monte Etna está protegido pela redoma das chamas terrenas!

- Ele tem razão - concorda Ágrios

- Quem quer que seja, se não estivesse vestido com o Adamas, jamais poderia cruzar o espaço e vir a este Templo Subterrâneo - completa Toas.

- Sim, mas apenas se fossem Cavaleiros - Encélado se irrita com o pensamento limitado dos outros gigantes. - Esta mulherzinha, Atena, é uma divindade, como nosso senhor!

Neste momento os poderosos Gigas estão dominados pela pressão de Atena, que aos olhos de qualquer um pareceria uma humana qualquer.

- Esse temor... Somos totalmente tementes a esta moça, apesar de ser algo completamente diferente do que sentimos pelo nosso deus!

- Entendi - diz Tífon. O deus dos Gigas, na forma de Mei, está totalmente nu. Sob os cabelos, agora de um negro profundo, a criatura lança o fogo de seu olhar maligno. - Uma fenda se abrira na redoma de chamas terrenas sob minha proteção. Agora entendi. Foi a força de Atena.

- Tífon... - Atena aponta-lhe o bastão de Nike. - As ondas do seu Cosmo fazem o chão tremer e, viajando da Sicília até o Santuário na Grécia.

- Entendi. Foi assim na antiga Gigantomaquia. Vem por si mesma encontrar seu destino nos campos da morte.

- Afaste-se desse corpo... - ordena a deusa. - Afaste-se de Mei.

- Entendi. Atena está presente em sua plenitude nesta era. E o que é de mim? Isto não passa de um marionete. Estarei em desvantagem neste frágil corpo humano. Além disso, é um corpo terrivelmente feio...

Não existe possibilidade de diálogo, Tífon se limita a dizer o que lhe vem à mente, não admitindo qualquer negociação. Ignorando o pedido de Atena, o deus dos Gigas sobe tranqüilamente os degraus do altar.

- Sumo sacerdote.

- S-sim, meu Senhor. - Encélado se ajoelha.

- Onde está o meu fulgurante corpo carnal? Onde está a oferenda?

- Entendi - mais uma vez Tífon coloca suas mãos em posição de ataque.

- Pare! - e mais uma vez Atena grita para impedir a investida.

- Pretende me atacar com esse bastão de ouro? - pergunta Tífon, sem olhar para trás.

O deus dos Gigas sabe o que Atena não o faria. Sua vontade não lhe permite ferir um de seus protetores. E esse corpo frágil pertence a Mei.

- O que tem a sua frente é o corpo de um de seus queridos Cavaleiros - o rosto de Tífon se contorce num sorriso fúnebre. Não fossem os cabelos, que passaram de prateados para negros, seria a própria face de Mei. - Se me atacar com o bastão, o corpo de Mei morrerá. Se ficar indecisa, esta menina posta em sacrifício morrerá. Qualquer que seja a decisão que tome... Como é patética a vontade de Atena! - os braços de Mei, que agora são os de Tífon, brandem no ar.

Então: sangue.

- Ofereçam-me sangue"

- Mas o quê?! - Shun, Hyoga e até mesmo Atena não acreditam no que vêem.

Armaduras de Adamas em frangalhos. O corpo nu de Mei, que agora é Tífon, está úmido de sangue.

- Sinto falta.


Parte 6

Ágrios e Toas convulsionam, em pé, depois de suas armaduras de Adamas terem sido violadas. Mei, que agora é Tífon, perfurou com os punhos enrijecidos o abdome dos dois Gigas, arrancando suas vísceras com vigor. Seus órgãos esbranquiçados estão expostos, e são expelidos logo em seguida pela pressão interna do organismo para, finalmente, esparramarem-se pelo chão. Os dois caem e o sangue de suas feridas vai sendo sugado pelo piso do templo subterrâneo.

Um estrondo estremece a enorme caverna. A redoma de Flegra pulsa com o novo fluxo colossal de Cosmos.

- Sinto falta - protesta ainda assim Tífon, das profundezas do abismo infernal.

Encélado se curva diante das palavras do deus. Mesmo se afogando na poça formada por suas próprias vísceras, com rosto totalmente desfigurado pela dor, Ágrios e Toas fazem uma prece a Tífon.

- Que o sacrifício seja feito. O pouco de força que tenho agora não é suficiente para derrotar Atena. Ofereçam-me tudo que puderem. Tirem-me das profundezas do vazio. Ofereçam-me - Tífon impõe-se pelo temor.

Os dois Gigas, já condenados, dão a última mostra de lealdade, queimando o Cosmo do momento final de suas vidas em oferenda ao deus. Os Cosmos de Ágrios, a "força brutal" a Toas, o "relâmpago célere" são devorados por Mei, agora Tífon.

- Sumo sacerdote... - continua o impetuoso deus. - Ofereça-me seu corpo carnal de meu irmão mais velho. O Cosmo flamejante dos meus irmãos poderá destroçar por dentro este corpo frágil de ser humano.

- Como o senhor quiser - Encélado não titubeia, completamente dominado pelo "temor".

- Ofereçam-me! - Tífon lança um raio na direção do sumo sacerdote dos Gigas. Encélado, o "brado de combate", entrega-se totalmente à alma contida nas palavras do deus, tornando-se literalmente um boneco com uma máscara demoníaca: olhar turvado, postura indecisa. Um vento repleto de maus presságios causa arrepios nos Cavaleiros. O halo vai deixando o corpo frágil de Mei, formando uma aura flamejante que se separa da figura humana. Tífon: origem semântidca de "tufão": senhor de todos os ventos malignos.

- Tífon - diz uma voz.

A vontade divina dos Gigas estanca no meio do caminho, antes de ser transferida para o corpo de Encélado.

- Quem pronuncia o meu nome?

- Sou eu.

- Mei! - grita Atena.

Até agora um fantoche de Tífon, Mei passa por uma evidente transformação. Seus cabelos recuperam a cor prateada, o brilho turvo e flamejante deixa seu olhar e os lábios transmitem as palavras da vontade que lá deveria estar.

- Saori...

- Mei? - Atena age como uma humana, entre o desespero e a vontade de se certificar de que é mesmo ele que está aqui.

- Manda ver. Arrebenta o meu corpo com esse bastão e leva junto esse deus maldito - pede Mei, lutando para manter o controle sobre suas palavras.

- Mas...

- Não pense duas vezes! Este é o único momento em que você pode fazer isso... Rápido, antes que o Tífon deixe este corpo de vez. Você... é a Atena viva, não é? - é o Cosmo de Mei que suplica à guerreira protetora da Terra, uma voz apagada pela dor, um fio de vida que pode se perder a qualquer momento.

- Entendi. Quando comecei o processo de transferência para o corpo do meu irmão, a alma humana deste corpo se revelou, costurando os rasgos da dominação imposta pela minha vontade.

- Eu não sou um marionete, Tífon! Eu sou Mei, um Cavaleiro de Atena...

- Ora, foi graças à sua presença frívola diante de mim quando eu ainda estava selado, ó frágil humano, que um ínfimo pedaço de mim pôde surgir nos dias de hoje.

- Cala a boca! - Mei segura os próprios ombros com as mãos manchadas de sangue, tentando impedir que a vontade de Tífon escapa completamente. O deus, tremulando no interior do halo, parcialmente libertado, volta-se para Atena.

- Vai me atacar com esse bastão de ouro?

- Tudo que faz é espalhar temor com um vendaval enlouquecido - a voz de Atena volta a soar altiva como a de uma deusa. - Não passa de uma fera demoníaca faminta. O que poderia querer ressurgindo nos dias de hoje? Uma vontade pervertida como a sua só ficaria satisfeita destruindo toda a Terra e depois, por fim, a si próprio!

- Onde fica a morada dos Gigas, que me cultuam e me protegem? - pergunta Tífon. - Onde nós, Gigas, poderemos nos estabelecer em paz? Quer dizer que só temos a prisão no vão entre Gaia e Tártaro, de onde nem mesmo a luz pode escapar? Ora, sua meretriz ordinária! Posando de protetora da Terra! - a vontade de Tífon se confunde com as dos Gigas sacrificados, criando um caos em seu Cosmo.

Uma sombra passa voando. Garras cortam a carne.

- Quirri! - Pallas, o "parvo", que permanecera oculta até agora, corta com ímpeto as costas de Mei. O sangue brota como uma bolha de lama, escorrendo para o chão. O corpo do jovem se inclina pesadamente.

No mesmo instante, a vontade de Tífon tremula, radiante, transferindo-se para o corpo de Encélado. O deus toma para si as energias dos Gigas, unindo a elas todos os fragmentos de Cosmo acumulados na redoma de Flegra, criando assim um redemoinho de luz. A máscara demoníaca de Encélado cai de seu rosto, despedaçando-se no chão. Seu traje sacerdotal se reduz a pó, perdendo-se no ar. Em seu lugar, rompendo a pele de dentro para fora, surge uma nova armadura de Adamas, dotada de um brilho ônix nunca visto.

O deus está agora em um corpo poderoso. O senhor dos Gigas, devorador de sacrifícios e mestre dos ventos de maus presságios, finalmente se revela. A nova imagem de Tífon é totalmente assimétrica. O lado direito cospe chamas infinitas. No lado esquerdo, um vento vaga sem rumo. As cores dos olhos, dos cabelos, da pele, o próprio formato do Adamas, tudo é diametralmente oposto a partir de uma linha imaginária vertical no centro de seu corpo.

O novo Tífon é certamente belo. Sua figura física e sua voz são belas, assim como as chamas que brotam do arco-íris do olho direito. Relâmpagos branco-azulados são lançados de cada um dos poros de sua pele no lado esquerdo.

- Atena. Você sempre justifica suas lutas com a auto-afirmação de que seus combates são em prol da "justiça" e escondendo seus massacres sob a justificativa de "guerras santas". - O deus dos Gigas sabe que Atena e seus Cavaleiros travam perpetuamente um conflito moral diante da contradição de guerrear com violência a fim de proteger o amor e a paz da Terra.

- Cale-se - Atena está incomodada, mas mantém um postura firme. - E por acaso os Gigas têm alguma "justiça" à altura da minha vontade?

- Você está errada. Não é nesse ponto de devemos nos confrontar. O pior crime que existe é relegar os fatos ao esquecimento. Atena, será que você esqueceu até mesmo o motivo pela qual lutamos? A batalha entre os Gigas e os Humanos. Caso tenha se esquecido, vou refrescar sua memória. Esta não é uma Guerra Santa: é uma Gigantomaquia, uma luta contra gigantes. - As palavras de Tíon atingem Atena como um raio, despertando sua memória. - Esta é uma batalha primitiva, a mais primordial das disputas. É a Luta pela Sobrevivência. Ninguém pode impedi-la - proclama o Deus dos Gigas. - E, você, Mei, frágil marionete, já é meu.

Tífon abre largamente os dois braços. Mei não consegue se mover, seriamente ferido pelas garras de Pallas.

- Vou devorá-lo aqui mesmo - a voz de Tífon ecoa, ameaçadora. Mas, no momento em que seus punhos de fogo e de vento agourento se erguem, Atena arremessa o bastão de ouro. Sobre a cabeça de Mei, o Cosmo dos dois deuses se chocam. Os ataques são anulados, um reduzindo o poder do outro a um nível mínimo.

Do espaço vazio surge uma caixa adornada com estrelas do firmamento. Não é de ouro, nem de prata, nem de bronze, e sim negra como a noite.

Tífon é tomado por uma memória antiga.

- Qual das 88 constelações está simbolizada nestes relevos? - pergunta-se em pensamento.

- Eu disse pra você, Tífon. - Mei recupera a voz milagrosamente. - Não sou um marionete. Sou um Cavaleiro de Atena!

Com isso, a caixa se abre em pleno ar, revelando uma armadura brilhante, que suga para dentro de si toda a luz ao redor. A estátua da constelação de Mei começa a tomar forma: uma mulher, de costas. Seus longos cabelos se ondulam com uma breve cintilação que lembra a imagem de uma lâmina brilhando. A figura toda negra se desmembra então, aderindo ao corpo nu de Mei.

Tífon consegue finalmente trazer à tona a lembrança do nome da constelação, que permanecera lacrada juntamente com sua vontade desde tempos imemoriais?

- É você, Cavaleiro de Coma Berenices.

Mei lança um ataque que projeta o queixo desprotegido de Tífon no ar, atirando o deus dos Gigas com força para trás. Tífon cospe sangue. Sua mandíbula poderosa é rachada ao meio.

- Eu... Cavaleiro de Atena...? - percebe Mei, usando o pouco que resta do seu Cosmo. É um breve momento de felicidade, antes que ele tombe para a frente, exaurido, perdendo os sentidos.

- De fato, admito que não recuperei a plenitude das minhas forças - resmunga Tífon, alisando o queixo com um ar preocupado. Lança então sua mão direita contra o solo, socando com vigor no chão, que se racha em dois. Labaredas se erguem com estrondo, formando uma coluna de fogo.

Um som ensurdecedor reverbera por toda a grande gruta. Rochas se desprendem das paredes, caindo como uma chuva de meteoros. A coluna de fogo de Tífon atinge o teto da caverna e atravessa a barreira de pedra, chegando até a superfície.

- Não haverá sentido em registrar esta batalha histórica. - Tífon, envolto na coluna de fogo, afasta-se lenta e soberanamente.

O magma ardente começa a vazar das fendas deixadas na terra.

- Você tem a obrigação de lutar e me matar. E eu tenho a obrigação de lutar e matar você.

O Monte Etna, a pedra angular do selo que prendia os Gigas, desaparece em meio às labaredas da destruição.


Intermissão

- Vou contar a história do Mei.

No Santuário, Nikol relata os fatos para Shu, Hyoga, Seiya e Kiki.

- Foi um pouco antes da "Revolta de Saga" - começa. - Mei estava em treinamento na Sicília, quando, pelo menos até onde eu sei, seu mestre ordenou uma provação final para que ele conquistasse a qualificação de Cavaleiro.

- Ei! - interrompe Seiya. - Isso quer dizer que, na época que a gente se tornou Cavaleiro, o Mei também tava no estágio final do treinamento? - O Cavaleiro de Pégaso ainda não está completamente recuperado do ferimento nas costas.

- O Mei disse que tinha perdido o direito de se tornar Cavaleiro quando seu mestre foi morto na Revolta de Saga... - diz Shun.

- Creio que estava mentindo - responde Nikol, com tristeza. - Mei já era um marionete de Tífon no primeiro momento em que apareceu diante de nós. Aparentemente, ele começou a trabalhar como informante do Santuário depois da Revolta de Saga. Na época, era um entre muitos soldados rasos, e eu não o conhecia pessoalmente. Só muito recentemente, já como coordenador dos agentes secretos, é que fiquei sabendo que ele estava na Sicília.

- Mas o que era a tal provação?

- Conseguir, com as próprias forças, uma prova de que ele era um Cavaleiro.

- -Quer dizer, a armadura?

- Havia um traje sagrado lacrado juntamente com os Gigas naquele templo subterrâneo do Monte Etna.

- Nossa, desde a época da antiga Gigantomaquia?

- Provavelmente.

- Então a armadura da constelação coma-sei-lá-o-quê estava sem portador?

- É o que se diz nos livros históricos do Santuário. Como voc~es sabem, pouquíssimas pessoas têm qualificação para redigir e consultar esses livros. Além de Atena e o Mestre, apenas alguns Oficiantes. Atualmente seríamos eu e a Yuuri.

A oficiante auxiliar Yuuri, resgatada juntamente com Seiya por Atena, está na UTI de um hospital da Fundação Graad, viva, apesar de uma fratura craniana - talvez graças à proteção de sua constelação padroeira.

- Eu não sabia que esse traje existia... Como o mestre do Mei sabia? - pergunta Seiya.

- Bom, o mestre do Mei... - Nikol pára por um instante, com medo de continuar - ... era um dos Cavaleiros viciosos que se aliaram a Saga de Gêmeos com a intenção de executar Atena. É provável, porém, que ele quisesse que seu discípulo se tornasse um Cavaleiro para ajudá-lo na luta contra Atena.

- Então faz sentido - compreende Seiya. - Naquela época Saga ocupava o cargo de Mestre do Santuário, o que explica como ele ficou sabendo dessa armadura selada.

- Saga precisava de força para enfrentar Atena - prossegue Nikol. - Como era refém de vontades malignas, violou um dos segredos mais profundos do Santuário, traiu proibições e tentou romper o lacre da armadura protegida no Templo.

- O Mei sabia disso? - pergunta Shun.

- Mei não tinha a menor idéia das intenções do seu mestre ou do seu relacionamento com Saga. Ele certamente acreditava piamente se tratar de seu desafio final para se tornar um Cavaleiro. Mas, ao conseguir penetrar o templo subterrâneo, Mei foi dominado pela vontade de Tífon, passando por uma espécie de lavagem cerebral parcial... - Nikol faz uma nova pausa. - O que aconteceu depois é suposição minha. Acredito que Tífon tenha trazido os Guerreiros Giga de volta à vida através de Mei. Na verdade, o Orestes mascarado que atacou a mim e ao Shun no teatro da Acrópole era Mei, que deve ter invadido o Santuário logo em seguida para seqüestrar a Yuuri.

- Então aquele era o Mei...

Seiya e Shun se lembram com clareza da figura do "inimigo" e do seu cheiro de animal selvagem.

- Ninguém poderia imaginar que Tífon tentaria usar o sangue de Cavaleiros em sacrifício - explica Niko. - Ou que estaria acumulando Cosmo através de uma redoma de força, a fim de reunir força suficiente para romper o selo de Atena.

- O que era aquele traje sagrado que o Mei usou? - pergunta Hyoga, que tinha permanecido calado até agora. E, percebendo que Nikol hesita em responder: - Oficiante-mor. Pelo que você disse, aquele traje negro parece ser muito especial.

- Sobre esse assunto... Atena irá falar, mais cedo ou mais tarde. - declara Nikol em um tom misterioso.

- Ah, larga de frescura! - grita Seiya. - Já faz dez dias que o Tífon sumiu naquela erupção. A coisa foi tão feia que o próprio Etna foi pelos ares. Só conseguimos fugir de lá porque Atena salvou a gente, e...

- Feridos não devem se exaltar, Seiya.

Felizmente a enorme explosão não fez muitas vitimas, uma vez que a população já havia sido evacuada da área, atingindo somente as equipes do Exército que patrulhavam a região. A nuvem de cinzas vulcânicas atingiu a estratosfera e ainda cobre o céu da Grécia.

- A vida de milhões de pessoas está ameaçada - argumenta Shun. - Se essa tragédia é fruto do poder de Tífon, ninguém sabe o que ele poderá fazer no futuro.

- Prestem atenção - Nikol assume uma expressão mais séria do que nunca. - A batalha contra os Gigas que está para começar tem um significado totalmente diferente de todas as outras que vocês já travaram. Antes de mais nada, o que são os Gigas? Nesses dias que se passaram, procurei pesquisar a resposta nos livros históricos. Descobri que, antes dos Gigas serem exilados nas profundezas do Vão entre a Terra e o Mundo dos Mortos, já havia Atena sobre a Terra, Poseidon sobre os mares e Hades sobre o inferno. Sob a liderança de Zeus no céus, os deuses dominavam os três mundos. Poseidon e Hades se envolveram em inúmeras guerras contra Atena, para conquistar a Terra. Nós, os Cavaleiros, lutamos em muitas e muitas Guerras Santas para defender o amor e a paz na Terra, afastando dela as vontades malignas e viciadas.

- Senhor... - intromete-se Shun. - Um dos Gigas me disse exatamente a mesma coisa. E ele questionou o que os Cavaleiros de Atena defendiam.

- Qual foi a sua resposta, Shun?

- As pessoas inocentes.

- Exatamente, Os seres humanos.

- Mas os Gigas... não são humanos - Hyoga e Seiya ficam sem palavras.

- No passado, existiu na Terra uma espécie poderosa que, como os homens, conquistou o fogo e comeu o fruto da sabedoria. Era uma civilização poderosa, assim como os deuses que cultuavam.

- Esses eram os Gigas?

- Os humanos e os Gigas são raças hostis entre si que jamais poderão coexistir. A prova disso é que nós, humanos, sempre retratamos os gigantes em nossos mitos como figuras monstruosas e diabólicas.

- Por isso a batalha primitiva...

- É a luta pela existência, a batalha de cada espécie por sua permanência - enfatiza Nikol. - Esta não será uma Guerra Santa. Ninguém poderá impedi-la. O que está para começar é uma luta quem nem merecerá constar da história. O combate mais baixo e rasteiro que pode existir, uma reles luta de morte pela vida.

Na Sala do Mestre, os Cavaleiros são envolvidos por um pesado silêncio.

- Como está o Mei? - pergunta Hyoga, bem baixinho.

Nikol se vira para o fundo da Sala do Mestre, erguendo os olhos na direção do Templo sagrado, que fica além da cortina vermelha e da parede de pedra.

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